Um Teatro de sete fôlegos
Augusto Baptista
Almocreve e Soldados em cânticos de adormecer, o público
irrompe numa vozearia súbita. Busco a causa do desassossego, perscruto à volta.
Na ala Norte, junto ao coreto, há alvoroço; Palhaços aos pinotes, vassoura
alçada. Penso em desacato, altercação repentina e rija. No entrecruzar de
correrias, entrevejo uma carroça puxada a burro. E dela logo saltam dois
campónios andrajosos, sobraçando sacolas. Um deles transporta uma caixa de
madeira com furinhos. O público abre alas e, lestos, os recém-chegados sobem a
rampa de acesso ao tablado. Provocação?
Cristãos e mouros assistem, mudos. Rápido, os intrusos
apropriam-se de microfone e, voz alterada, vociferam, andarilham, pulam. Acampam
no sobrado, puxam de pão e de enchidos, de garrafa de tinto e da naifa, comem,
bebem, palram demorada lengalenga em verso, a propósito da gente e das coisas
da terra. E dão palmadas sonoras na caixa de madeira com furinhos, de onde
sobressai um rabo hirto: gineto embalsamado?
O palco é deles. À volta, o público abre as goelas em
perdida risota, ergue-se nas cadeiras, delira com os impropérios e desmandos
dos figurões. A canalhada comprime-se na borda do estrado. Os mais chegados,
implicantes, batem-me nas pernas, numa avidez de visão.
Às cambalhotas, nas palhaçadas e nos comes e bebes, os
tainantes. Rapa de isqueiro, um; o outro sugere cortar rodelas do rabo saído da
caixa de madeira, como se fora chouriço. E rebolam, espolinham-se no chão de
pau. Voz enrolada nos morfos, um deles grita:
O cabrito acabou
E também o cabrão
Agora não sei se vou soltar
Um burro ou um
leão!
À volta, os olhos arregalam-se, ansiedade concentrada. Os
corpos comprimem-se contra os limites do tablado. Nas cadeiras, tudo
E logo um silêncio. Um silêncio insólito. E o pasmo. O
pasmo de dois olhos vivos a saírem da caixa, rastejantes: um gato! É a explosão
da barulheira. Como um raio, o bicho corre. Sombra apardaçada, rasga o tabuado
em ziguezagues felinos, embrenha-se na multidão.
E raspa-se com estampidos secos de bombarda, rasto de
tumulto a assinalar a fuga. Pés, pernas aos pulos, o terreiro revolve-se em
ouradas correrias, abre-se em clareiras, em gritos e gargalhadas. No turbilhão
demencial, aos estoiros, a serpentear de pânico, sempre a estoirar, o gato.
Isto é cruel!
Ninguém me ouve.
Um Rei fogueteiro
Domingo claro, quinze de Agosto de 1999, desemboco no
centro de Portela Susã, pequeno povoado entre Barcelos e Viana do Castelo: o
largo, uma rasgada avenida até à igreja; à esquerda, arvoredo de copa larga,
palco à sombra; do outro lado, o cemitério. Entre campas, um fogueteiro.
Abordo-o.
Fico vagamente a saber
que ainda é cedo... auto só depois da procissão... quatro e meia... O resto do
discurso vai-se no estralejar do foguetório. Mortos e vivos em sossego, diz
chamar-se Baltazar Rodrigues, ser construtor civil e vir todos os anos de
França participar na comédia: é o Rei Turco.
Tenho a ponta que procurava. Apressado, «preciso de me ir
vestir», resume a intriga: «A minha mulher vai pedir trigo fiado ao Almocreve,
que é o chefe dos cristãos, para pôr uma loja de padeira. Mas ele não vai na
conversa. Depois mando lá os meus vassalos. Para entrar, chamam um Doutor de
Leis. Entram, há guerra e morremos todos... Depois vem o Barb...». Cresce de
ritmo, a anunciada procissão espreita no fundo da avenida. «Vem o Barbeiro e o
Enterrador para nos mandarem para a cova... aparece um Anjo e faz-nos
ressuscitar. Eu ainda luto com ele... mas depois deixo que ele me baptize... e
acaba tudo em bem».
A Fanfarra dos Escuteiros de Mujães encabeça a procissão.
Seguem-se os andores, o pálio e, por fim, em solene pára-arranca, a banda. Com
dificuldade o senhor Baltazar transpõe o rio sacro, fura a margem apinhada,
estouga o passo rumo ao vestiário. Eu na peugada.
Lá chegados, quinhentos metros acima, já na estrada
deambulam os cristãos. Almocreve, o chefe, é Valeriano da Costa Cunha, homem de
meia idade, funcionário público, armado de espada. Tem sapato preto, camisola
interior e peúgas brancas. De resto as calças de meia perna com
folhos rendados, o manto, a redonda barretina tudo nele é amarelo. Até o
sorriso: «Pediram-me à última da hora para fazer isto. Eu fui bastantes anos,
mas depois larguei de ser. Estou com um bocado de receio».
Despreocupados parecem estar os seus oito moços, farda
militar e bivaque, jovens quase todos. À cintura trazem cartucheira e sabre de
pau. Por perto, descansam as espingardas. Rui Manuel da Costa e Silva, operário
como quase todos os camaradas de armas, explica a guerra que os espera:
«Cantamos todos juntos e algumas vezes só dois a dois. Vão dois, outros dois,
sempre assim até aos oito. Também dançamos e ralhamos. E quando eles (os
turcos) vêm para nós, temos de lhes mandar tiro». Esclarece: «É cartucho
verdadeiro, só não leva chumbo. É com farinha milha. E atiramos para o ar».
Mais descansado, oiço o Anjo, aluno do Externato das
Neves, «onze anos quase a fazer», cabeleira postiça pelos ombros, manto azul,
branca vestimenta pelos pés, asinhas e auréola celestial. Espera-o uma empresa
e pêras, apesar da comprida varinha de condão com que brinca, entre dedos:
«Falo muito. E quando estão todos mortos tenho de os ressuscitar».
Lateral, recostado ao muro, o Porta-Bandeira. José
Marques da Silva, 59 anos, nos batiments em
França, herdou do falecido pai o papel. E, como ele, é homem de poucas falas:
«Falo só um bocadinho, quando vamos para a batalha». Mas, a deduzir pelo
atavio, a acção vai ser suada. Barrete vermelho tronco-cónico na cabeça, veste
alvo balandrau a três quartos; da cintura para baixo, refulgem o magenta das
calças, fole rés ao joelho, e o branco da perna ao léu, tirantes cruzados de
cabedal a treparem das sandálias. De cristão, em boa verdade e de aspecto, só
se lhe vêm as cruzes de pano azul, estampadas no peito e nas costas. E na
bandeira.
Em bando desordenado, os turcos descem a estrada,
apressados. Os estantes, todos cristãos, organizam-se. Chega a banda, chegam
mordomas e mordomos, o ensaiador e gente grada da comissão. E não tarda que
partam todos, marciais, embalados pela contradança cristã. A abrir caminho, os
Palhaços.
Cristãos no tablado, a banda vai buscar os antagonistas,
reunidos logo abaixo.
Do senhor Baltazar fogueteiro, o Rei Turco só herdou os
óculos. As barbas, hirsutas e muito pretas, amarradas às orelhas, escondem o
rosto e contrastam com as cãs que a alta barretina vermelha deixa a descoberto.
As calças, fole na canela, são vermelhas. Azul é o manto.
Evidência de cor, discrição de decote e de ornamentos tem
o vestido, azul até aos pés, de Goreti Assunção Torres, 23 anos, Padeira, no
palco e na profissão. Da touca escarlate pende-lhe sobre as costas uma mantilha
branca. Na mão, freme um leque de sevilhana.
Igual vestimenta têm os dois Vassalos turcos: manto
claro, calça rubra, colete a condizer com o amarelo das espadas. Na cabeça,
inevitável, o vermelho de uma carapuça mourisca.
À mão esquerda do Rei Turco, seu esposo, posta-se a
Padeira ou Fêmea, como aqui lhe chamam. A ladeá-los, os Vassalos. E partem,
luzidios, ritmo marcado pela contradança turca. Duzentos metros volvidos, no
terreiro, a banda cala-se. A toque de caixa os turcos aproximam-se, cristãos
aos tiros. Não tarda o frente a frente dos exércitos sobre tábuas, público a
ferver em redor.
Não tem comparança
As três representações intercalares têm um texto
improvisado, não incluído no manuscrito antigo, publicado pelo padre Maurício
Guerra, em 1980. (1) Os comediantes, nestes episódios, dispõem de uma larga
margem de inventiva. O mais óbvio objectivo destes momentos laterais é, através
da comicidade, introduzir tempero ao monótono discurso principal. Um tanto como
faz Brutamontes nas vizinhas representações de Floripes: em Palme, sobretudo, e nas Neves.
Já o Almocreve e o Rei Turco, a Padeira e os Vassalos, os
Soldados e o Porta-Bandeira enfim, cristandade e sarracenos
têm falas com o texto fixo e antigo. Constantes serão também as
músicas, quer do caixa, quer da banda de Barroselas, executante das
contradanças: n.º 1, dos cristãos; n.º 2, dos turcos.
Papel importante na comédia é também o dos Palhaços: dois
mascarados grunhidores, dançantes e armados de vassouras, feitas de galho de
eucalipto e de giestas, «para picar os pés às pessoas e abrir caminho».
E há ainda o ensaiador. Desta tarefa e desde há anos, se
encarrega António José da Costa Rêgo, «mas toda a gente me conhece por António
da Garrida», 68 anos, reformado: «Em 1973, o senhor Fernando Ribeiro Gomes, na
altura presidente da Junta, escreveu-me para França para eu vir cá reanimar
isto». Foi apelo irresistível.
No exercício da função, o senhor António da Garrida não
se queda pelos bastidores. Desfila no grupo dos cristãos e, depois, salta para
o palco, actua. Está-lhe reservado papel importante. Como os microfones são
poucos, assegura a passagem do testemunho
entre comediantes. E, nos tempos livres de responsabilidades sonoras, atento,
dirige as danças, murmura falas. É ponto móvel.
Os passos da representação e o texto sabe-os de ponta a
ponta. Em 1954, foi componente,
«escrevi e decorei tudo». Mesmo assim, «para a rapaziada nova estudar nos
ensaios», usa cópia do auto publicado pelo padre Maurício Guerra, ob. cit.,
«para evitar trabalho».
A representação do Auto
de Santo António revela afinidades com a do Auto da Floripes, nas Neves, e com a do Drama dos Doze Pares (ou Auto
de Floripes),
Mas, todas estas representações «mourismas coreo-dramáticas»,
como em relação às Neves se referiu Rebelo Bonito se desenvolvem com a mesma
disposição dos componentes em palco (
O texto, apesar das diferenças, inclui uma passagem muito próxima em
todas as representações. Em Portela Susã:
Vassalos (turcos)
Meu Rei, meu Senhor, fujamos
Lá por essas partes d'além
Porque quem foge sempre
vence
Nós sempre ficamos bem.
Rei Turco
Não ficamos bem nem nada,
Considerai-o bem nos termos:
Se nós agora fugirmos
Que risota não faremos.
Vassalos (turcos)
Meu Rei, meu Senhor não
tema,
Nem tenha mais que temer,
Que à força destas nossas
espadas
Nós guerra havemos de
vencer.
Em Palme, conforme manuscritos de João Sá e de Sousa e Sá, recolhidos e publicados por Maurício Guerra
(2):
Soldados (cristãos)
El-rei meu senhor fujamos,
Por esse mundo além.
Que quem foge sempre vence,
Todos nós ficamos bem.
Rei (cristão)
Não nos fica bem nem nada,
Considerai-o bem nos termos,
Se nós d'aqui retirarmos,
Que risadas não teremos.
Soldados (cristãos)
El-rei meu senhor não tema,
Nem tenha mais que temer,
Nós lá vamos para o campo,
Suceda o que suceder.
Nas Neves, ainda segundo recolha de Maurício Guerra (3):
Soldados (turcos)
Meu rei, meu senhor, fujamos
Por esse mundo além;
Que quem foge sempre vence,
Todos nós ficamos bem.
Balaão
Não ficamos bem nem nada,
Considerai bem os termos;
Se nós agora fugirmos,
Que risada não teremos.
Soldados (turcos)
Meu rei, meu senhor, não
tema,
Nem tenha mais que temer;
Vamos lá para a batalha,
Suceda o que suceder. (4)
Só susto
No Auto de Santo António, é
posto em palco o velho antagonismo entre cristãos e mouros, a pretexto de
razões económicas: vender ou não trigo fiado. O conflito de interesses entre
mercadores (os cristãos) e os clientes (os mouros) enreda-os numa guerra
religiosa. O texto sugere que os integrantes de ambos os campos são alheios à
povoação. Os cristãos estão de passagem, para comerciar, os turcos aqui vêm
para comprar. Ambos os grupos são de fora, estranhos, exteriores à comunidade,
na circunstância a festejar o Santo António.
As outras personagens Lavrador, Doutor de Leis, Barbeiro,
Enterrador, Criados correspondem a uma intrusão local em
guerra alheia. Não desfilam, integrados em qualquer dos dois lados da
guerra.Trazem ao palco, de modo solto, autonomamente, os problemas da terra;
prestam assistência jurídica aos turcos, contra os cristãos; dispõem-se, a
pedido do Almocreve, a barbear e a enterrar o Rei turco. Sendo cristãos,
pragmáticos, prestam serviço aos dois campos antagónicos, a troco de dinheiro.
É a supremacia do material sobre o espiritual, a terrena sobrevivência diária a
sobrepassar valores religiosos e diferendos celestes, estes também aqui
desencadeados em razão do vil metal.
A princesa Floripes das Neves e de Palme (filha do Almirante Balão) tem
similitudes com a Fêmea (Padeira ou Esposa do Rei Turco) de Portela Susã: todas
foram há anos representadas por um homem; todas são mulheres de poucas falas e
decisivas na acção; todas sugerem em cena o papel determinante da mulher
minhota na economia familiar, num quadro agrário e tradicional.
Também o combate entre o Almocreve e o Rei Turco, no Auto de Santo António, remete-nos, nas
teatralizações das Neves e de Palme, para uma transfiguração da luta entre
Oliveiros e Ferrabrás, ou, noutro patamar, entre Carlos Magno e o Almirante
Balão.
Por tudo isto, reconhecendo no inconciliável antagonismo cristãos-mouros
papel essencial na caracterização do Auto
de Santo António, ponderadas as inter-influências Neves/Portela Susã/Palme no texto, nas contradanças, na
representação, nas soluções cénicas resta concluir que também no Auto de Santo António se respira a
atmosfera da História do Imperador Carlos
Magno, e dos Doze Pares de França, obra entre nós traduzida por Jerónimo
Moreira de Carvalho, no século XVIII.
É claro que
O Auto de Santo António resistiu
a vicissitudes e ao tempo, numa bolsa de esquecimento. Maurício Guerra situa a
origem da representação há cerca de duzentos anos. O mesmo autor estima datar
por volta de 1900 o manuscrito mais antigo conhecido, redigido por Manuel
Gonçalves da Tore (sic) (1861-1922). Testemunhada, a primeira representação
remete-a para cerca de 1918. Depois, com interregnos, diz ter a comédia subido
ao tablado até 1955, para só ser reatada em
À acção deste homem e ao entusiasmo dos conterrâneos muito se deve a
preservação da comédia. E também à paixão dos muitos emigrantes entre eles vários actores que de França, de Andorra, de muitos
destinos no Mundo, aqui arribam em Agosto.
Mas o gato! O gato aos estoiros! Não seria possível preservar a
tradição, a cultura, a comédia, sem tamanho sacrifício? Com detalhes
pirotécnicos, o ensaiador explica: «O gato vai armar ao fogueteiro. Aquilo tem
um rastilho e as bombas vão numa embalagem. Depois incendeia-se a pólvora e as
bombas rebentam uma por uma, maiores, mais pequenas, sempre a estoirar umas
atrás das outras». Mas isso é cruel!
«Não senhor! Então eu não expliquei?! O bichinho não sofre nada. É só susto. A
esta hora já deve estar em casa».
(1) Auto de Santo António -
Vitória dos cristãos, Conversão dos turcos, in Separata de Cenáculo n.º 72 da 2.ª série, ano XIX,
Jan.-Março de 1980.
(2) Auto da Floripes nas Neves e
em Palme, Separata de "O Distrito de Braga", Vol. V, da 2.ª Série
(IX), 1982, pág. 24.
(3) Auto de Santo António -
Vitória dos cristãos, Conversão dos turcos, pág. 11.
(3) Obra citada na nota (2), pág. 27 e 29.
(4) Das três quadras transcritas, referentes ao auto das Neves, só esta última integra a recolha de Leandro Quintas Neves, publicada em: Auto da Floripes, Comissão de Festas das Neves, 1963, pág. 14.
Publicado na Adágio, nº 27, Junho/Julho de 2000