teatro popular

Teatro em Subportela

Augusto Baptista

«Esta tarde, um tanto ou quanto amena, parece ser uma tarde especial para levarmos à cena, mais uma vez neste recinto maravilhoso, o Auto de S. João. Teatro de origem medieval, de antes do nascimento de Cristo, tem tradições nesta freguesia de Subportela já muito antigas». Palavras do Narrador, introduzindo a peça.
Passa das seis da tarde, hora anunciada para o início da representação. O público é tenaz compacta, maxilas ferradas em redor do cenário.1 Já nos haviam avisado: o auto é o cerne da festa, atracção principal para a muita gente que neste dia ruma ao monte de S. João. Todos querem ver, ouvir, serem ungidos pelo ambiente sacro que se instala neste cocuruto, Subportela em bico de pés a mirar a geografia à volta: Portela Susã, Vila Franca do Lima, Deocriste, Serraleis, S. Salvador, Cardielos e, rés ao mar, Viana do Castelo.
O Narrador estica o prólogo, fala de uma extinta coreografia integrada na procissão de S. João, a Dança do Rei David. Diz que o auto nasceu há 55 anos, sob o impulso de Manuel Afonso de Carvalho, filho da terra e bispo de Angra, detalha as considerações do jornalista Leandro Quintas Neves sobre a peça no final dos anos 50 e proclama, enfim: «Vamos ter de início Zacarias, que já anda por ali, pensativo, porém de idade avançada. Vemos também sua mulher, Isabel, vergada pelos anos, na sua casa. Zacarias continua a orar, porque ainda não perdeu a esperança de ter o filho que já deseja desde a sua juventude».
Espevitados pelas palavras que a instalação sonora torna omnipotentes, os olhares cravam-se em Zacarias: «Vamos ver, ele vai orar, vai pedir ao Senhor. E o Rei dos Reis, presente no templo que se encontra em frente dele, vai atendê-lo». A voz é um foco grave a iluminar os olhos da multidão. 2
Entreaberto o véu da intriga, povo engodado pelas personagens, o Narrador reinicia: «A partir deste momento, vamos ter em palco a representação de um pouco da vida de S. João». E, didáctico: «Zacarias prepara-se para queimar o incenso, acto que ainda hoje não é dado a qualquer pessoa. É preciso ter-se formação para tal e estar presente em actos solenes para se incensar. Felizmente fizemo-lo de manhã, aqui na capelinha da ermida de S. João, aquando da celebração da missa; fizemo-lo de tarde, no final da procissão, incensando o Santo Lenho, bem como nesta altura, no palco do Auto de S. João».
A assistência esforça-se na contenção, põe respeito no acto, refreia o gesto, a voz, como quem pisa templo. Perto de pais, avós, a miudagem mantém-se em sossego, dividida — a crer nos olhos — entre o espanto e o medo.
Incensando o espaço, Zacarias irrompe numa sobredose benta, pungente: «Ó Senhor Deus de Abraão, Isaac e Jacob. Mandai o Messias, Aquele que prometestes enviar. Dai-me um filho para que o meu sangue lhe seja comunicado. Senhor, tirai a desolação da minha casa. Para mim o mundo é noite escura, transformai-o em claro dia. Senhor, ouvi a minha oração».
Logo as súplicas crescem, mágoa cantada:

(...)
O nascer aos pais um filho
Santo fruto do amor
É o maior contentamento
Que dar pode o Criador.
Então eu servo fiel
Hei-de ser amortalhado,
Sem sentir fechar-me os olhos,
O meu filho abençoado?

Sobranceiro e alvo, aparece um Anjo melodioso, aquietante: 3
 
Não receies Zacarias
Nem se turbe o coração,
Pois no céu já foi ouvida
Tua bela oração.

Isabel tua mulher,
Por decreto do Senhor,
Vai gerar-te um menino
Que será o teu amor.

«Zacarias duvida deste anúncio», antecipa o Narrador, sapatos mordidos pelo rio Jordão, um exíguo charco de água à flor do solo. Em cena, laterais, Maria e José. Também eles na ânsia calada de procriarem. Por perto, um burro.

Sopro vital
«Eu não tenho vergonha de dizer que isto mexe comigo. Emociono-me, eu choro com o auto», confessa Ilídio Rego, o Narrador. Essa emoção transborda do discurso pausado, solene, com que explica ao povo o que se passa em cena, vai-vem narrativo a revelar asa de pregador.
Mesmo sem aprendizado, Ilídio Rego sabe falar ao coração, pregar aos olhos. Eleito presidente da junta de freguesia de Subportela numa lista de independentes, é militante do auto, ensaiador, «muito ajudado pela minha mulher». Aos seis anos fez de S. Joãozinho. Depois foi Pastor, mais tarde Zacarias. E, na hora em que a representação agonizava, reanimou-a: «Isto esteve parado uns tempos. Nos anos 80, arranjei personagens, cheguei a ser ensaiador e Zacarias ao mesmo tempo, e voltámos a pôr o auto de pé».
Curioso é o empenho da comunidade  na preservação de um teatro nascido — segundo Ilídio Rego — do gesto criador de um membro da hierarquia católica, com notório propósito de doutrinação: «O auto, acompanhado por um narrador, serve de sermão de festa, sermão ao vivo». 4 Esta convicção, diz, foi-lhe transmitida «por padres doutores, distintos oradores sacros, priores». E anos houve em que o papel de Narrador foi desempenhado por abades a sério: padre Brito, padre Fraga.
O apuro na transmissão da mensagem bíblica tem levado à inclusão de novos quadros ao núcleo central, levado pela primeira vez à cena há 55 anos. «O auto tem sido mais progredido», garante Manuel Rodrigues Pereira de Almeida, mais conhecido por Manuel Brandão, o actor que fez o papel de Zacarias, em 1948 e em 2003: «No começo só havia doze pastores, o S. João, o Zacarias e o Anjo. Depois é que passou a fazer-se a Visitação e o Baptismo».
Quando há 55 anos entrou no auto, Manuel Brandão já tinha experiência de palco. Num tempo de analfabetismo, Subportela era uma ilha escolarizada. A terra tinha escolas, professores, muito por força da iniciativa dos lavradores da freguesia: «Depois era de Vila Franca, de Mazarefes, de Anha, de todo o lado, vinham para cá estudar». Mas rareavam as distracções. «Houve então um professor do Porto, o senhor Veloso, que pensou fazer aqui um teatro». E, em 1946, Manuel Brandão estreou-se na peça Por causa das eleições, onde fazia o papel de pacóvio. Pouco depois reincidia em Era um só par de botas.
Este traquejo deu-lhe serenidade e argúcia para ultrapassar um inesperado desafio, no primeiro ano de Zacarias. Conta: «O senhor D. Manuel, à última hora, chamou um primo dele, o Pereirinha, armador aqui da terra e quem mais animava o auto, e mandou entregar-me um papel com o pedido do Menino, para ser cantado. Eram muitos dizeres, letra de doutor. Não percebia nada. Escrevi tudo, colei num missal e na hora falei Ó Senhor Deus de Abraão, Isac e Jacob, mandai o Menino e tal, tal. Era essa conversa toda».
Em 1948, o palco foi um carrão, feito de propósito para representar o auto. «Tinha duas rodas atrás, duas à frente, muito comprido, de forma a dar espaço para o baile dos pastores, mais o sítio onde aparece o Anjo e a casa de Zacarias». A plataforma rolante, construída na povoação para servir de tablado, foi puxada por duas juntas de vacas e levada até ao alto. Nos anos seguintes, não mais foi repetida a receita: a cena sedentarizou. Mas as pessoas continuaram a chamar carrão ao estrado que, na festa, passou a ser erguido frente à ermida.
Com a cena virada a Poente, à torreira do Sol, o calor era muito. Um ano houve que, após o acto, desidratado, Ilídio Rego foi a casa, rapou a barba. Para predar alguma aragem. Este desespero fez migrar o palco da parte fronteira para as traseiras da ermida. À sombra, a cena consumou-se numa infra-estrutura com risco de Lucílo Valdez, do Teatro Noroeste, e Dantas Lima, do Museu Rural de Ponte de Lima. «Foram eles que nos fizeram este cenário, de linhas simples, mas que se enquadra perfeitamente com os actos que são levados à cena».
Estruturadores, a seu modo, podem ser também os homens. Manuel Vital Barbosa, 33 anos, professor do ensino básico, é o Anjo, melhor, o Arcanjo S. Gabriel. Há três anos consecutivos, diz, «encarna a personagem», consciente de que, bem ou mal, decisivo é haver quem faça. E ele faz, por razões culturais «e também em termos religiosos encaro isto muito a sério».
Assumindo a defesa das tradições, acha entretanto necessário «renovar cenários, se calhar as próprias roupas mereceriam outra atenção». Mas, para ele, o essencial é o texto: «Talvez as pessoas venham ver os gestos, os pastorinhos a dançarem, e não interiorizem tanto o texto. Além de lindíssimo, aquilo que as personagens dizem é o mais importante».
À valia da palavra, Vital Barbosa junta a força do silêncio, quando, antes do auto, desfilava na procissão, alado, rosto recoberto de hirsutas barbas: «Onde estou, estou. Não estou para mais nada. E tento encarnar a personagem com todo o respeito que ela me merece, no auto, na procissão».
Igual postura, solenidade, assumiam no cortejo religioso todos os integrantes. Desde as irmandades, aos penitentes — andor aos ombros —, aos romeiros, aos actores, novos, velhos, que em conjunto vi participarem no desfile. E as ovelhas, o cão, a bicharada do auto me pareceu na procissão possuída de uma aura, luz celestial. Até o burro manquejante de José e Maria sugeria, respeitoso, quebrar o passo ao ritmo arrastado das gaitas-de-foles, tambores e pandeiretas da banda galega de Barbude, povoado de Pontevedra.
Em tal reparando, como não interrogar: «Quem pode saber se o sopro vital do homem sobe para o alto, e o do animal desce para debaixo da terra?» 5

 

Roque

Domingo, 22 de Junho de 2003, a rondar as três da tarde cheguei ao monte de S. João, altar de Subportela, com uma ermida, dois coretos pequeninos, cruzeiros. Dia de festa, o sítio em alvoroço: a pista de carrinhos eléctricos, os vendedores ambulantes, a barraca de tiro, a tenda de comes e bebes, o chão do auto aperaltado e, fronteiro a este, um palanque para os convidados. Em actuação, a Banda dos Escuteiros de Barroselas. 6
Junto ao cenário teatral, um burro; perto, à sombra, um velhote arredondado: «Nasci em terras de Barroso, há 74 anos. Naquela altura, era tudo nosso irmão, ti António, ti Maria. Uma ocasião foi lá um bispo inaugurar uma capela: Viva o ti bispo! Viva o ti bispo!»
José Vitorino Barroso foi almocreve, como o pai: «Matosinhos era peixe; nas estradas era carroça; nas serras era cargas, caixas, carvão, sal, cabritos, vitelos, suínos, castanhas, centeio. E muito vinho transportei eu sem guia para Espanha». Mais tarde, foi motorista de longo curso em Lisboa, depois, rendido ao amor, ancorou em Vila Mou, redondezas de Subportela.
Tinha ali história. Mas a minha atenção centrava-se no asno, laço vermelho, entre orelhas.
— É seu?
— Sim. É o Roque.
— Entra no auto?
— Leva uma moça a cavalo, Nossa Senhora e tal...
— Pagam-lhe alguma coisa por isso.
— Pagam: já comi, bebi, já está pago!
— Filho único?
— Tenho um outro, anda em Espanha a fazer cinema.
— Cinema?! Não me diga que esse é artista?
— É artista, é!
— Muito me conta. E chama-se?
— Roque.
— Têm o mesmo nome?!
— Têm o mesmo nome porque vieram do mesmo dono, o Roque de Campeã, lugar de Vendas de Baixo, Vila Real. Vieram do Fernando Roque. Todos os que vierem de lá chamo-lhes Roque.
— Então, diga-me, e aqui o Roque que idade tem?
— Cinco anos.
— E o artista?
— Seis. Esse está a dar no cinema espanhol, de Madrid.
— Então eles em Espanha não têm burros?
— Nem todos dão, que têm medo dos aviões. Aquele não tinha. Nem todos dão para o cinema.
— Não dão por terem de andar em viagem de avião, é isso?!
— Fora isso, alguns assustam-se. Na ponte velha de Ponte de Lima, os aviões andavam rasteiros, a voar perto de nós, se fossem bravos...
— Mas eles vão fazer em Madrid um filme com aviões?!
— Pois, para fazer o clima de guerra civil.
— Ah!
— Havia outros deles, mas tinham medo. O meu não.
— O aluguer desse deve ter sido uma fortuna...
— Isso não é comigo.
— O quê, o burro tem empresário?!
— Vêm ter comigo, para eu emprestar. Desta vez foi o Tono da Barca, de Ponte. Conhece-me, procurou se eu cedia, que tinha lá um animal que era do senhor presidente da câmara, o Campelo, mas tinha medo dos aviões e da carroça. Os meus não têm medo. Eu converso com eles...
— E aqui o Roque, qual é o papel dele na festa?
— É como lhe disse, levam-no, para andar a moça a cavalo.
— Mas ele anda sempre com a Nossa Senhora?
— Eu julgo que sim. Eu entrego-o...
Entrega-o, velho Barroso. Entrega-o. E o Roque desfila na procissão, entra em palco, depois. Findo o auto, toda a gente de volta a casa, Roque em cena, ainda. Calado, como sempre esteve. Nem um zurro, uma irreverência, um desvio do papel que lhe destinaram, tal qual a milenar narrativa: dorso sagrado de jumento a resgatar Maria da cidade de Belém, Jesus ao colo.

 
Do carrão ao palco
Rente a Subportela sobrevivem várias representações com intriga centrada na luta de faz-de-conta entre mouros e cristãos: Os Turcos de Crasto (Ponte de Lima), O Auto da Floripes (Neves, Viana do Castelo), Os Doze Pares de França (Palme, Barcelos), O Auto de Santo António (Portela Susã, Viana do Castelo). 7 O Auto de S. João foge a este imaginário: «O nosso auto é baseado em dados bíblicos. João, Isabel, Maria, Cristo, Gabriel, os Anjos, são personagens bíblicas, agindo num quadro conforme as Escrituras», diz o ensaiador.
Também ancorado no Evangelho e com palco na vizinha freguesia de Anha (Viana do Castelo), José Rosa de Araújo dá notícia da representação de O Auto do NascimentoAs Comédias de S. João, periodicidade quinquenal, ultimamente: 1990, 1995, 2000. Longe da atmosfera sacra de Subportela, estas peças têm textos bem humorados: Auto do Soldado, Auto do Gaspar, Auto do Brasileiro... O próprio Sermão sobre a vida de S. João, outra das representações, é para «atrair o riso às pessoas», assegura o comediante Manuel da Silva Barbosa, vivo secretário da junta de freguesia de Tregosa. 9 
De toda esta envolvente teatral, Ilídio Rego conhece os autos das Neves e de Portela Susã: «As comédias de Santo António são uma sátira d' O Auto da Floripes, são um auto da Floripes de um estilo aparolado. Não lhe imprimem o requinte, a perfeição das Neves. 10 As músicas são idênticas, os trabalhos são idênticos também, mas enquanto na Floripes são de perfeição rigorosa, nas comédias de Santo António, como o nome indica, são muito mais cómicas, a assistência diverte-se muito mais. 11 O nosso auto não tem nada a ver com lutas de mouros ou turcos». 12
Realmente, O Auto de S. João em Subportela é um outro modo de pregar Cristo, dar instrução religiosa, fazer catequese, muito embora esta valência evangelizante acabe hoje subalternizada (traída, arriscaria) face à pluralidade, à riqueza de tantas outras pulsações.
A ideia do auto partiu de D. Manuel Afonso de Carvalho, filho de Subportela, estudante em Braga e aí professor no Seminário Conciliar, mais tarde Bispo Coadjutor de Angra do Heroísmo. Ainda segundo Ilídio Rego, a iniciativa poderá ter nascido «por ele saber da existência da Dança do Rei David na procissão do S. João, aqui em Subportela, há 150, 160 anos atrás». 13
Na região minhota, não só Subportela conheceu as notas e os passos da Dança do Rei David. A mourisca, precursora da dança, assinala Rodney Gallop, Portugal — A book of folk-ways, já no século XVI integrava a procissão do S. João em Braga, entre outras danças, folias e carros decorados, herança da vertente profana das procissões do Corpus Christi. 14
A integração da mourisca nos cortejos e desfiles religiosos, considerada a carga pagã que carregava (recriação dançada de lutas entre ou contra mouros), conheceu progressivos entraves ao longo do tempo. 15 Em decorrência da propagação entre nós das festas do Espírito Santo, o império foi-se-lhe sobrepondo, assinala Luís Chaves: «A mourisca foi vencida pelo império»; o auto mímico transformou-se em dança ou bailado «de sugestão guerreira». 16
Nos Regulamentos municipais ordenadores das procissões, a designação impériomourisca: «Nos regimentos das procissões — continua Luís Chaves — figuram constantemente os Emperadores, Reis e Imperatrizes, sem nome; entre êles, aparecia nomeadamente "o Rei David de cetro e coroa com dois pagens" (Coimbra, 1517), "David a dançar com doze pagens" (Porto, 1621), aqui e ali o Império ou Dança do Rei David (Braga, Vila-Real, Mondim-de-Basto, Castelo-Branco, etc.); eram mouriscas de desfile, de bailado e de pantomima ginástica». E, mais adiante: «Alusões constantes aparecem: Impériosimpérios fora e por fora delas. O Império do Rei Davide foi a Dança do Rei David, em Guimarães, formada por sirgueiros, com Rei e corte (...)». 17  
Além da Dança do Rei David, Rodney Gallop, ob. cit., 1936, assinala a presença, na procissão do S. João em Braga, do carro das ervas ou dos pastores, infra-estrutura de uma representação em que participavam um Anjo, S. João e um grupo de pequenos pastores, com canto e dança. O carrão e a representação apresentada no ano de 1948, em Subportela, conforme a descrição de Manuel Brandão a que atrás aludimos, têm evidentes similitudes com o que assinala Rodney Gallop em Braga. 18
O carro dos pastores, descreve o autor, apresentava-se laboriosamente decorado. Puxado por bois, nele seguia uma enorme pedra fingida. Um menino personificava S. João, longa cabeleira e cordeirinho ao colo e, de vez em quando, entoava uma canção. Um grupo de crianças, vestidas de pastores e de pastoras, exibia uma dança popular. Súbito, o topo da fraga rasgava-se e, por encanto, aparecia «um anjinho, pés inseguros sobre uma nuvem de lã branca». E ali se equilibrava uns instantes a celeste criatura, em atitude de benção. Os pastores evoluíam depois à volta da rocha, 19
Conforme testemunho de Manuel Brandão, Zacarias de Subportela, há memória antiga nesta povoação da Dança do Rei David, sendo o carrão introduzido em 1948: «Isto aqui, antigamente, era a Dança do Rei David. Ainda havia pessoas que tinham os chapéus. Depois aquilo passou e o D. Manuel lembrou-se de fazer o auto, falou com um amigo dele, padre Borda, saído lá de Esposende ou Fão, que fez a música, a letra, fez essa coisa toda. E o D. Manuel trouxe o auto para aqui». Inspirador e estruturante nesta introdução parece ter sido o carro dos pastores, conforme Rodney Gallop o descreve na procissão do S. João, em Braga.
De 1948 para diante, o auto de Subportela passou a ser dirigido por gente da terra: Manuel Mana (Manuel Ribeiro do Rego), pai de Ilídio e o homem da música, e Nelinho Marinheiro (Manuel Antunes), professor, regrador e em casa de quem decorriam os ensaios.
Com o passar dos anos e o envelhecimento dos primeiros promotores, «isto foi caindo no esquecimento», afiança Ilídio Rego. O padre da freguesia, recentemente falecido, também ele Manuel Antunes, ensaiou o auto durante uns tempos. Já nos anos 80, iniciou-se o consulado do actual ensaiador, embora outras batutas tenham regido a peça: há dois anos, Manuel Brandão.
E o padre, o actual padre da freguesia, Adão Lima, que pensa ele do auto? «Dá liberdade» — garante o ensaiador. «Ele sabe que a representação dignifica a festa de cunho católico, é um complemento, cumpre à risca o texto que está escrito. Nós não alteramos uma vírgula».
Nota final neste percurso pelo passado, pelas personalidades influentes, pelos gestos inspiradores, uma referência tópica — talvez marginal — para assinalar a representação em Braga, pela companhia do Teatro Nacional Almeida Garrett, em 21 de Junho de 1936, de um auto de S. João, «num tablado feito contra o Templo e Hospital de S. Marcos no Largo dos Remédios», conforme brochura editada em Lisboa, nesse mesmo ano: «Auto de S. João, escrito por Gustavo de Matos Sequeira e realizado por Amélia Rey-Colaço». De entre os actores em palco, representando 37 personagens, alguns nomes: João Vilaret, Álvaro Benamôr, Amélia Rey-Colaço, Palmira Bastos, Robles Monteiro, Maria Lalande...
no Natal de 1919/20, texto em verso e intriga centrada no nascimento de Cristo. 8  Em Tregosa, bem perto de Subportela, concelho de Barcelos, representam-se passou a prevalecer sobre a terminologia nas procissões, «e este Mistério de bolso terminava».

A explicação dos passos
Aquando dos trabalhos de preparação, Ilídio Rego, o ensaiador, relatou-nos com detalhe o que se passa em cena: 20
Algumas personagens entram pelas escadas atrás do pano e aparecem-nos de frente. Há outras que nos aparecem pelas costas, saídas da multidão e perdem-se no espaço de cena: o templo do Rei dos Reis, a torre mais alta; ao lado, espaço marcado pelas colunas, a casa de Isabel e Zacarias; mais ao lado, a cabaninha de Maria e José, modesta.
 As primeiras personagens a entrarem em cena são José e Maria, em seguida aparece Zacarias, muito velho, a incensar o templo do Rei dos Reis. O Zacarias vai incensando, pensativo, sente os anos a passarem-se, olha por ele abaixo, cabelos brancos, rareados, barba branca, sente-se velho, a mulher também de idade avançada, e aquilo que ele sempre desejou, um filho, é um sonho cada vez mais remoto. Depois de ter queimado o incenso faz uma oração dirigida ao Senhor Deus de Abraão, Isac e Jacob, pedindo o envio do Messias e um filho, para que o seu sangue lhe seja comunicado.
Esta é a primeira petição de Zacarias. Depois canta as mágoas e, em verso, volta a reclamar um filho. Nesta oração de lamentação, aparece-lhe um Anjo, cantando, que lhe transmite será pai em breve.
Zacarias, um homem soçobrado pelos anos, ao ser surpreendido desta forma, fica estupefacto e não aceita a Anunciação que lhe é feita. Volta-se (porque ele da primeira vez, quando está a fazer a lamentação, está voltado para o público, o Anjo aparece-lhe por trás), volta-se muito admirado, e diz: Eu não posso acreditar / Ó meu Deus Pai de bondade, / Porque somos já velhinhos, / Avançados em idade. O Anjo sentencia: E se te custa a acreditar, / No que venho revelar, / Ficas mudo sem ter fala / Até isto se passar.
E o Zacarias, nesta altura, perde a fala. Entretanto, o Arcanjo Gabriel faz a Anunciação a Maria, que está muito embebida nos paninhos dela, a bordar; José no banco de carpinteiro, dentro da cabana, concentrado no trabalho. Diz Gabriel: Deus te salve, cheia de graça, o Senhor é contigo! E vai anunciando que ela vai ter um filho. Maria assusta-se e ele diz-lhe que nada tema, que a prima Isabel também vai ter um filho, apesar da idade, e explica:  Porque a Deus nada é impossível!
A Isabel aí, segundo diz a Bíblia, responde-lhe: Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim, segundo a Tua palavra! O Gabriel vira-lhe as costas e perde-se novamente no meio do povo. A partir daí, Maria apressa-se a ir a casa de Isabel para lhe dar a boa-nova que ambas vão ser mães. E tenta convencer José a ir com ela.
José, enfim, mais velho ainda do que Zacarias, não aceita de bom grado a notícia de ser pai, mas ela lá lhe diz que é uma decisão do Altíssimo. Vão a casa de Isabel, a casa de Zacarias, e concretiza-se a Visitação de Maria a Isabel. Saúdam-se e cantam as alegrias delas, enquanto José e Zacarias são meros espectadores.
Terminada a Visitação, recolhem todos a casa de Isabel. Nesta altura é quando vai o povo visitá-la — avisado pelo Divino que Isabel tinha tido um menino. Os populares entram a fazer barulho, texto livre. Lá anda o Zacarias perdido no espaço dele, pensativo, mudo. Se antes estava mal, sem fala ainda ficou pior. Eles chegam, perguntam pelo menino, que o querem ver, querem saber de Isabel. Aparece Isabel e o menino bebé. Lá estão as fadas-madrinhas... E Isabel mostra ao povo o seu filho João.
O nascimento de Cristo não entra aqui. Entra a Anunciação do nascimento de Cristo, mas Cristo não entra aqui. Só aparece mais tarde, como adulto. Apresentado o menino, gera-se confusão sobre o nome a dar-lhe. Há uma que propõe Ambróóósio! Isto é mesmo cómico. Dá mesmo para rir. Por acaso a senhora tem muito jeito para teatro cómico. Já é avó e é a primeira vez que vai. Espero que na representação se tire o resultado desta cena.
Feita a apresentação do menino, o Zacarias recupera a fala, usa um texto bastante grande, muito completo. E acabam por ir anunciar ao mundo o milagre que foi o nascimento de João.
Desaparecem todos de cena, fica o palco vazio, e regressa Zacarias, Isabel e o menino. Não o mesmo, já um menino mais crescido. Aparece o Anjo novamente e, cantando, diz: Já em tempos mais antigos / Fez milagres iguais, / Por um acto só de amor, / Dar um filho aos tristes pais. // Será grande ante Deus / E dos homens alegria, / Sem pecado já no ventre / Pela graça de Maria. A partir daí Zacarias extravasa de alegria (quando eu fazia de Zacarias, esta era uma das partes que mais gozo me davam, porque é mesmo de abrir a garganta e berrar, a cantar): Sê bendito Senhor Deus de Israel / Que visitastes o teu povo muito amado / Para dar ao Mundo infiel / O Messias, na Lei anunciado.
Depois continua por ali fora. Começa com muita alegria e termina com muita tristeza: O meu coração chora alcanceado / Ao pensar de meu filho o triste fim / Ó Jesus que serás crucificado / Tem dó deste menino e de mim. Porque antes ele já tem dito que João vai ser degolado. O pai sabe que o final do filho vai ser triste.
A partir desta altura entram os pastores, um grupo de miúdos que vai saudar o João, que é mais ou menos da idade deles. Aí já temos um João brincalhão, que dá a mão a beijar e dá a sua bofetadinha na cara dos pastores. Fazem umas danças de animação, entram todos para a casa de Zacarias e temos o Baptismo. Temos o João terceiro, já o João adulto, já o João barbado, que se mantém em casa, entra Cristo do exterior, acompanhado por dois anjos alados e, aos gritos, chama João. Este atende, travam diálogo, Cristo diz quer ser baptizado, e ele contrapõe: Mas então eu que devia ser baptizado por vós e vindes vós a mim?!
Temos um lagozinho cá fora, um lago improvisado, um imaginário rio Jordão, aí João baptiza Cristo. Sendo um acto muito nobre, chega a ser cómico, porque os rapazes são amigos, tanto o Cristo como o João são amigos, e há banho, muita água pela cabeça abaixo. E as pessoas gostam e riem.
Terminamos as cenas em particular, recolhe toda a gente aos bastidores, saem os elementos todos, personagens adultas, pastores, toda a gente vem ao palco, para se fazer a oração do adeus: Ó Senhor que morais nos altos céus / Inclinai para a Terra o Vosso olhar/ Mostrai-nos Vossa face mas sem véu / Quando esta negra vida terminar / E a Vós Virgem Mãe Nossa Senhora / Que também lá no céu Vos encontrais / Um pedido fazemos nesta hora / A benção para todos os mortais.
Isto, cantado. A partir daqui temos os grupos em sequência a virem à boca de cena, despedirem-se do público, receberem os aplausos. E termina o Auto de S. João.

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Três em um
Em 2003, a concretização do Auto de S. João em Subportela envolveu 39 actores. Destes, três houve a fazer o papel de S. João: um bebé, um rapazinho, um rapagão.
Entre os actores, abundou a juventude, rapazes, raparigas, gente pequenina, miúdos de jardim infantil, outros do 1.º, do 2.º, até ao 8.º ano de escola. Em palco, muitas mulheres: mães, avós, lavradeiras, donas da casa. Para que conste, aqui ficam os nomes dos integrantes do auto — gente importante, é de justiça dizê-lo — e correspondentes personagens.

Personagens bíblicas
Zacarias: Manuel Rodrigues de Almeida, 80 anos, mineiro e oper. naval/reformado; Santa Isabel: Rosa da Conceição Gomes, 39 anos, doméstica; S. José: Gilberto Gonçalo Ribeiro, 18 anos, est. universitário; Nossa Senhora: Cristina Raquel Dantas, 18 anos, empreg. têxtil; Anjo: Marta Carvalho Pinto, 14 anos, estudante; Anjo Gabriel: Manuel Vital Barbosa, 33 anos, professor; S. João (bebé): André Matos Lima, 1 mês; S. João (menino): Samuel Vaz da Silva, 7 anos, estudante; S. João (adulto) Patrik Costa, 20 anos, op. const. civil; Cristo: Helder Salvador Gonçalves, 14 anos, estudante; Anjinhos: Susana Dias Ribeiro, 8 anos, estudante; Micaela Silva Ribeiro, 9 anos, estudante.

Pastores (todos estudantes)
Salomé Alves, 10 anos; Lídia Pinto, 10 anos; Sofia Cardoso, 8 anos; Marlene Isabel Gomes, 9 anos; Ana Claudia Gomes, 11 anos; Yolanda Silva Barros, 12 anos; Joana Barreto Oliveira, 11 anos; Elsa Filipa Barros, 9 anos; Gabriel Cardoso, 9 anos; Emanuel Ferreira, 11 anos; David Afonso Silva, 10 anos; Gabriel Silva Barros, 11 anos; Duarte Costa, 12 anos; Diogo Gomes, 12 anos; Guilherme Osório Ribeiro, 8 anos.

Povo
Maria Rosa Dantas, 73 anos, doméstica; Maria da Conceição Silva, 65 anos, doméstica; La Salete Dantas da Silva, 34 anos, empreg. fabril; Maria Benvinda Barros, 47 anos, aux. serv. gerais; Maria da Conceição Oliveira, 67 anos, doméstica; Cristina Silva Franco, 20 anos, estudante; Daniela Sousa Barros, 12 anos, estudante; Carla Sofia Barros, 13 anos, estudante; Nelson Pinto, 12 anos, estudante; Sara Alves, 8 anos, estudante; Manuel Barros, 40 anos, op. const. civil.

Outros
Ensaiador e Narrador: Ilídio Rego; Ensaiadora dos pastores: Josefa Castro; Supervisão geral: Ilídio Rego e Manuel Rodrigues de Almeida; Guarda-roupa: Casa Tilheiro, Largo da Feira, Barroselas.

Em palco, houve ainda a presença de um jumento (Roque), ovelhas, um cordeiro, pombas e um cão (na procissão).
De referir que, ao longo dos anos, ao corpo do auto têm sido acrescentados vários quadros, determinando o aumento de falas e de actores. Nos primeiros anos, após 1948, o elenco era constituído por 12 pastores, S. João, Zacarias e o Anjo. Depois foi integrada a Visitação e o Baptismo.
Mais tarde, visando quebrar a sisudez do auto e introduzir momentos de descompressão e bom humor, para — segundo o ensaiador — aumentar a eficácia na cativação do público, foi introduzido um grupo de actores representando o povo, com texto tendencialmente livre.
Projectada para 2004 (chegou a estar pensada para 2003) está a integração de uma nova cena bíblica (a degola de S. João), o que determinará acréscimo do número de actores e do tempo de duração do auto (60 minutos, hoje).
Também a música mudou ao longo dos anos. «Veio uma pauta no início, que foi alterada. Tinha tonalidades muito agudas. Era difícil encontrar uma mulher para Anjo». Por isso, diz Ilídio Rego: «Pediu-se ao padre Vilaverde para fazer um arranjo. Ele levou a pauta, criou uma música nova, há 30, 40 anos. Hoje não se canta uma, nem outra. Aproveitamos as partes mais lindas das duas. A letra é que não muda».

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Notas

1 É gratuito o acesso à zona ao ar livre onde, no monte de S. João, se faz a representação. De qualquer modo, dizem-nos, a peça gera receitas para a comissão que superintende na festa e no auto: «Os festejos são pagos pela freguesia, pelos habitantes; e as pessoas perguntam à comissão: Há auto? Se há, a verba é uma; se não há, é outra». No tocante a despesas, as de maior monta resultam do aluguer de roupas (na Casa Tilheiro, em Barroselas), de barbas e cabeleiras (no Porto).

2 Para que os sermões façam abalo, é preciso pregar aos olhos, recomenda Vieira: «Vai um pregador pregando a Paixão, chega ao pretório de Pilatos, conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria, diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros; ouve aquilo o auditório muito atento. Diz que teceram uma coroa de espinhos e que lha pregaram na cabeça; ouvem todos com a mesma atenção. Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nelas uma cana por ceptro; continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes. Corre-se neste espaço uma cortina, aparece a imagem do Ecce Homo; eis todos prostrados por terra, eis todos a bater no peito, eis as lágrimas, eis os gritos, eis os alaridos, eis as bofetadas. Que é isto? Que apareceu de novo nesta igreja? Tudo o que descobriu aquela cortina, tinha já dito o pregador. Já tinha dito daquela púrpura, já tinha dito daquela coroa e daqueles espinhos, já tinha dito daquele ceptro e daquela cana. Pois se isto então não fez abalo nenhum, como faz agora tanto? — Porque então era Ecce Homo ouvido, agora é Ecce Homo visto; a relação do pregador entrava pelos ouvidos, a representação daquela figura entra pelos olhos. Sabem, Padres pregadores, porque fazem pouco abalo os nossos sermões? — Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos.» — Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655, in Sermões escolhidos, selecção, introdução e notas por Maria das Graças Moreira de Sá, editora Ulisseia.

3 Em Subportela, o Anjo tem sido interpretado por uma rapariga, ao contrário, por exemplo, dos autos de Crasto e de Portela Susã, também com um Anjo no elenco. Diz Manuel Brandão, Zacarias: «Quando vieram os papéis do senhor padre Borda, dizia: Anjo — uma menina de 18 anos. É um lugar muito difícil, por causa do canto e por ela estar lá em cima, sujeita a cair».

4 É grande a relação entre a gente de Subportela e o auto, assegura o ensaiador. Entre novos e velhos, «a decoração do texto é fácil; há miudinhos da escola que sabem o texto todo». Pelo palco já passaram centenas de pessoas, bisavós, avós... «Este ano, temos em cena uma avó e uma neta. E há o caso duma família em que veio a mãe, uma filha, um genro e três netos». Ideia a concretizar num dos próximos anos é juntar em palco toda a gente que, ao longo do tempo, integrou a peça.

 5 Livro do Eclesiastes, capítulo 3, versículo 21.

6 Dois episódios relatados por Daniel Gonçalves da Silva, 81 anos, residente em Subportela, ilustram a paixão popular pela Festa, aqui e noutros lugares. Há 75 anos, era Daniel criança, morreu-lhe uma irmã no monte de S. João durante a romaria, atingida pela explosão de uma carga pirotécnica: «Foi uma coisa triste, muito triste... mas gostamos da festa à mesma». A outra situação tem a ver com o avô de Daniel Gonçalves em tempo de despedida das coisas terrenas: «As últimas palavras dele foram: Vou deste mundo e a única coisa que me deixa pena é a festa de S. João».

7 Sobre várias das representações populares citadas (e outras entre nós em activo), curtas e importantes referências bibliográficas se adiantam: Leandro Quintas Neves, Auto da Floripes, 1963; Maurício Guerra, Auto da Floripes nas Neves e em Palme, 1982; Auto de Santo António, separata de Cenáculo, n.º 72, 1980; Paulo Raposo, Auto da Floripes, 'Cultura Popular', Etnógrafos, Intelectuais e Artistas, Etnográfica, n.º 2, Lisboa, 1998; Alberto A. Abreu, Auto da Floripes, Viana do Castelo, 2001; A. Machado Guerreiro, Teatro Popular Português (recolha de J. Leite de Vasconcellos), I a III, 1976-79, Coimbra; João R. Sousa, Turquia, 1984, Crasto;  João David Pinto Correia, Os Romances Carolíngios da Tradição Oral Portuguesa, I e II, 1993-94, Lisboa; Azinhal Abelho, Teatro Popular Português, I a VI, 1968-71, Braga.
Também alguns trabalhos e reportagens, texto e fotografia de Augusto Baptista, abordam esta temática: Os Turcos de Crasto, Notícias Magazine (NM) n.º 503, 13 Jan 2001; A Descoberta da Moura, NM n.º 476, 8 de Jul 2001; Um Teatro de Sete FôlegosVelho auto popular regressa ao tablado (sobre Os Doze Pares de França em Argozelo, Bragança), Jornal de Notícias, 29 de Ago 2000; Floripes Negra, ed. Cena Lusófona, 2001, Coimbra.
(sobre o Auto de Santo António em Portela Susã), Adágio n.º 27, Jun/Set 2000;

8 O Auto do Nascimento publicou-o José Rosa de Araújo em Dois Autos Populares, separata de O Distrito de Braga, vol. III da 2.ª série (VII), Braga, 1978. O segundo texto refere-se ao Auto de Santo António, teatro com solar em Portela Susã, Viana do Castelo.
José Rosa de Araújo dá nota de ter assistido na freguesia de Anha, férias do Natal de 1919/20, à representação de O Auto do Nascimento «sobre um grande tablado construído na frente da igreja paroquial e aproveitando-se, mesmo, o muro que o circundava. Sobre o estrado havia uma grande tenda rectangular com dossel de tecidos cor de rosa, amarelos e verdes. Os personagens, inchados como pavões, de capas, coroas e plumas, entravam e saíam do palco pelas escadarias situadas na frente e por detrás dos cenários do fundo, que eram também uns cortinados vistosos, de cores berrantes, semelhantes aos do tejadilho. Ao lado, havia outro palanque, onde se instalara a filarmónica que acompanhava a representação, que demorava horas e horas. A alturas tantas, lá do fundo do largo, vinham, a cavalo, os Reis Magos e comitiva, transportando malas e maletas. Precedia-os uma grande estrela de papelão, papel transparente e com um toco de vela acesa dentro, que vinha vagarosamente por um fio de arame e rodízio, puxada com cautela para não incendiar».
Entretanto, em 1960, teve o autor acesso a uma versão dactilografada do auto (datada de 1932), publicando-a em 1978, como acima se aludiu. O texto reporta-se ao nascimento de Cristo, extenso enversado para 35 actores. Entre as personagens: Rei Herodes, S. José, Virgem, Anjo, Pastores (8), Rei Gaspar, Belchior, Baltazar, Pregador... Ilha em prosa, narrativa introdutória do auto, a intervenção do Pregador: «Meus Caríssimos ouvintes: É hoje que vos venho contar a vida de S. José e da Santíssima Virgem Maria. Há 400 anos depois da criação de Adão. Não sabia S. José o que sucedera a sua Santíssima mulher, Virgem Maria. Mas Deus lhe revelou o Mistério. Um anjo aparece-lhe em sonhos e lhe disse estas palavras: — José, filho de David: guarda contigo Maria, tua esposa, que, por obra do Divino Espírito Santo ela será mãe de Deus, filho de Deus Padre. Darás ao Menino o nome de Jesus, isto é, o Salvador, pois será ele que salvará o povo dos seus pecados. E José obedeceu. Pouco depois, saiu uma lei do Imperador Augusto, mandando que todos os habitantes da Judeia dessem a rol os seus nomes dizendo cada um de que cidade era originária a sua família. José e Maria, que eram descendentes de David, tinham-se ido matricular a Belém, onde...». Missa a metade, a prédica terminará com o pedido de «três ave-marias: uma por mim, outra pelo pregador, outra por quem fez este sermão».

9 As Comédias de S. João, em Tregosa, representam-se num tablado, por detrás da capela em honra do santo; montado no terreno íngreme fronteiro, acomoda-se o público.
A maratona teatral começa no sábado a rondar o S. João, com loas nocturnas: histórias bem humoradas, em verso. Segue-se o ensaio geral da contradança. Domingo à tarde, há uma breve introdução dançada e, depois, apresentam-se vários autos. Encerra o programa a contradança geral, «do princípio ao fim: troca de lenço, as fitas». Três a quatro horas é quanto, no domingo, nos disseram demorar as actividades de palco.
Uma altura houve em que os textos dos autos estiveram em perigo. Valeu Manuel Sião e Joaquim Dias, que, nos anos 50, os recuperaram. O presente e o futuro de As Comédias de S. João, património que muito justamente enche Tregosa de orgulho, passa por muitas mãos: a junta de freguesia, o povo da terra... E passa, em particular, pelo grau de entusiasmo destes nomes: Joaquim Dias e Porfírio Miranda, entre os mais velhos; Manuel da Silva Barbosa e Jorge Maciel Barreira, entre os mais novos.

10 Vale dizer que, no universo das heranças culturais, e com independência das apreciações que suscitem, todas as sobrevivências com palco popular são preciosas: relíquias que é preciso reconhecer, salvar, estimular.

11 A comédia, as comédias, é modo popular de dizer teatro, cómico ou não. Maria Benvinda, Mulher do Povo na representação de Subportela, referiu: «O pessoal da terra gosta disto, gosta de ver a comédia». Logo, para ilustrar a paixão, sua e dos seus: «Houve um ano em que eu fui de Senhora, a minha irmã de Santa Isabel, o meu irmão de Zacarias, a minha filha de Anjo, e irmãos, cunhados... Quase fizemos o auto». Este envolvimento familiar muito alargado é aqui frequente entre os integrantes da peça.

12 Faz sentido anotar que a nossa abordagem intercepta um imaginário de séculos, entre nós culturalmente estruturante e com terminologia popular consagrada: cristãos, mouros/turcos, infiéis, pagãos.

13 À Dança do Rei David, «quando esta se integrava na procissão da festa de S. João Novo em Subportela», atribui Ilídio Rego algumas quadras dispersas por si recolhidas no ano 2000, junto de Júlia Barral e sua irmã Olívia, então com 85 e 87 anos de idade: «Vinde, vinde ó pastores / Vinde, vinde adorar João / Alegres nós cantemos / Pedindo-lhe a benção. // Vim servir de testemunha / Do cordeirinho de Deus / Cordeirinho imaculado / À terra baixou dos céus. // Se S. João bem soubesse / Quando era o seu dia / Descia do céu à terra / Com prazer e alegria». O teor destas quadras pode entretanto sugerir outras origens. Hoje, os pastores abrem assim os cânticos a S. João: «Vinde, vinde, pastorinhos / Lindos cantos entoar, / Em louvor deste menino / Que seus pais veio alegrar».

14 Em Portugal — A book of folk-ways, Cambridge, University Press, 1936, Rodney Gallop apresenta a mourisca como «um grupo de rapazes novos com o seu Rei, armados de escudos e lanças, que interpretavam uma mímica batalha (...). Em Braga, 1532, eles foram reorganizados num grupo de vinte a expensas da cidade, dotados de uniformes, em substituição dos andrajos com que costumavam  aparecer, e autorizados (obrigados?) a dançar em algumas procissões religiosas, ao longo do ano». Por fim, remata: «Actualmente, estes pitorescos elementos desapareceram da procissão de Braga, que, entretanto, conserva duas interessantes presenças: o carro das ervas ou dos pastores, e a Dança do Rei David».
Quanto ao Rei David e seus dez cortesãos, o autor diz vestirem casacos azuis ou de veludo carmesim, adornados com alamar prateado. Rei (de coroa) e cortesãos (de turbante) desfilam ao som de violino, guitarra, flauta, ferrinhos, violoncelo. Aqui e além param, formam em duas linhas e, sempre a tocar, dançam virtuosamente.

15 Sobrevivência rara é A Dança dos Ferreiros, mourisca ainda em activo na procissão do Corpo de Deus em Penafiel. Ver A Folia e o Andor, texto e fotografia de Augusto Baptista, Notícias Magazine n.º 11, 1992.

16 Luís Chaves, Danças e Bailados, Notas de Coreografia Popular Portuguesa, Lisboa, 1944, pág. 13.

17 Luís Chaves, obra citada, págs. 12 a 14.

18 Apesar das similitudes, Zacarias é figura só presente no carrão de Subportela. Por isso, também só aí, há referência à casa desta personagem no tablado rolante. De notar, conforme referência de Manuel Brandão, Zacarias de Subportela em 48, que só à última hora lhe chegou às mãos o apelo-súplica ao Senhor Deus de Abraão, Isac e Jacob...

19 Também em Vale Formoso, Distrito da Covilhã, uma rocha se abria para dela sair uma muito jovem moura, centro de contendas posteriores entre cristãos e mouros. A última representação de A Descoberta da Moura ocorreu em Setembro de 1951. O povo da terra e em particular o presidente da junta de freguesia de Vale Formoso, Arménio Marques Matias, sonham trazer de novo a palco esta representação (ver A Descoberta da Moura, Notícias Magazine n.º 476, 8 de Jul 2001).

20 Em 2003, houve quatro ensaios e um ensaio geral, este já em plena festa, sábado, 21 de Junho.

A vida de Roberto do Diabo
Cavalhadas na Beira Baixa
Teias de Cordel
Um Teatro de sete f˘legos
A Descoberta da Moura *
Teatro em Subportela
A folia e o andor
Os Turcos de Crasto *