teatro popular

A folia e o andor

Texto
Augusto Baptista

A cidade acorda estremunhada. Troam salvas de tiros. E o foguetório espanta os pardais, nos telhados e quinteiros. É o dia do Corpo de Deus, em Penafiel.
Na véspera foi festa até às tantas: Cortejo do Carneirinho, bailes, fanfarras, cavalhadas. Foi fogo-preso, variedades “com Luís Manuel, cantor emigrante (e suas bailarinas)”.
Mal dormida, cedo a cidade se tem de pôr a pé. É o dia da procissão e são horas de assar o carneiro. Os sinos repicam e, logo pela manhã, bandas de música invadem as ruas. Chegam camionetas de romeiros. Na igreja matriz, há devotos a rezar o terço em voz alta, no intervalo do almoço.
A tarde promete. Nas ruas acampam vendedores ambulantes e feirantes. E há fogaças, há pipocas, há cavacas. Há sandes e gasosas. Há mendigos. Os tascos estão a abarrotar.
No coreto, em frente à Câmara, toca a banda de Paços de Sousa. Em cena, rua fora, entra a banda de Ramalde, passo certo, passo largo, ao som de uma marcha militar. À frente vem o maestro, muito hirto, fato e gravata. Rendido à música, olhos fixos no trombone, um cauteleiro até se esquece da sorte grande que tem na mão. Indiferentes, as meninas dos bombeiros continuam o peditório.
Agora chega a fanfarra dos Voluntários de Entre-os-Rios, com bombos e cornetas. “Expressamente de Espanha” vem a Banda de Granaderos de Ferrol com os seus sons de gaitas e pandeiros. Chegam mais bandas, de outras bandas. O Baile dos Ferreiros e o dos Pedreiros dançam “para as excelentíssimas autoridades e ilustres convidados”. A música já não cabe no largo.
E festa inunda a cidade. A polícia corta o trânsito. Nos passeios e nas ruas já não cabe mais ninguém. Das varandas, das janelas, pendem colchas douradas, azuis, cor de vinho. É a procissão que vem aí, tarde avançada.
“O cortejo já não tem o mesmo tique. Antigamente era mais completo e mais a preceito.” Zeferino Cândido Coelho, reformado, explica porquê: “Aí há sessenta anos, havia muitos cavalos no desfile, adornados. Quanto a bois e ao resto, era a mesma coisa, mas em maior quantidade. E havia ainda o Baile dos Alfaiates e o dos Turcos.”
E as recordações incendeiam-lhe os gestos e a voz: “O Baile dos Turcos era um espanto. Havia um globo, grande, dois metros de diâmetro, com um anjo lá dentro. No decorrer da procissão, ouvia-se um estrondo, à moda de um morteiro. O globo abria-se e de lá de dentro vinha um anjo que entrava logo na dança”.
A malta do centro comercial vem à rua espreitar a procissão. As mães dão os últimos retoques nos vestidos dos anjinhos. Os cavalos, impacientes, dão guinadas, pinotes, e relinchos, nervosos, os cascos a chispar no paralelo.
E é a vez do Baile dos Ferreiros se integrar no cortejo. Dúzia e meia de guerreiros armados de espada, inspiração sarracena na vestimenta branca, gravata de sangue, flores de plástico sobre a fronte. Mário Ferreira, sapateiro reformado, vigia. É ele o responsável deste grupo, “o exército da dinastia dos Ferreiras.” Explica: “Agora é o meu pai, é o que manda. Dantes era o pai do meu pai. Morreu ficou o meu pai. O meu pai ainda é vivo, mas como tem noventa e tal anos, eu é que venho cá olhar por isto”. E insiste: “Mas o meu pai é o que manda, o velhote. Eu morrendo fica para os meus filhos, e depois para os meus netos. E assim sucessivamente”.
O cortejo toma forma. No ar os acordes solenes da música a querer marcar o ritmo. Hesitante, a procissão avança. Insinua-se por entre ruas, avenidas e becos: Rua do Sacramento, Rua do Bom Retiro, Rampa das Freiras, Avenida Egas Moniz…
Olhar fixo nas vestes dos cavaleiros, curiosa, a assistência comprime-se nos passeios. Todos querem ver. As bandeiras, os estandartes em desfile, aquelas cores, cavalos e gente, tudo faz lembrar guerras, uma História. A brisa, suave, sacode no povo o desejo de partir à conquista de um tempo imaginado. E ninguém repara nas lentes míopes do aio de S. Jorge, santo-general das nossas tropas. Nem reconhece, ali, o Salvador Fonseca, homem da terra, para quem a vida tem sido madrasta: “Ando nisto há cinco anos. Vou ao lado do cavalo, agarrado às pernas do santo, que é para ele não cair.”
Nada é real. O calor esquenta as cabeças, mas ninguém arreda pé. O cortejo trepa à parte nova da cidade, com o vagar de quem é dono do tempo. Levada por uma nuvem de anjinhos, voa, redentora, lá no alto, a Figura da Cidade. E ninguém descortina naquela personagem majestosa, vestida à romana, pregada no céu, o António engraxador, 70 anos de idade e privações: “Eu vou aqui para ver se ganho algum. Não sei este ano quanto dá. Nos outros deu dois contos, mais ou menos”.
Sem poesia, as rodas do Carro Triunfal gemem, aos tropeços, no empedrado. À frente, uma junta de bois arrasta-se, vergada ao peso de tamanha encenação.
E a procissão desliza por vielas medievais, chão de pedra, escorregadio e gasto: Largo da Ajuda, Rua do Paço, Rua Direita. Nos passeios, à sacada, debruçada da janela, sempre gente. E lá vai o Boi Bento, trôpego, olhos de menino em corpanzil de gigante.
O cortejo distende-se aqui, comprime-se convulso mais além. Durante horas, sempre o mesmo passo entorpecido. No chão um tapete de verdura esmagado por mil pés. E, no ar, activo, perdura um cheiro a procissão.
E lá vêm as cruzes, os estandartes, os dísticos religiosos, as confrarias, o clero, a gente importante da terra, o pálio. O povo curva-se, ajoelha.
Rápido tudo se esfuma. E, à noite, a festa desfaz-se, ruidosa, mil raios de fogo no céu.
Cansada, por fim, a cidade deixa-se adormecer.

……………………………….

Cada um para seu lado
Não tem sido fácil a coexistência entre o profano e o religioso. O braço-de-ferro dura há séculos. E promete continuar.
Desde o século XII, não havia em Portugal cidade ou lugar com alguma importância que prescindisse da celebração da festa do Corpo de Deus, invocadora do “triunfo do amor de Cristo pelo Santíssimo Sacramento da Eucaristia”. Segundo o etnólogo Ernesto Veiga de Oliveira, estes festejos e a procissão que lhes corresponde eram dos acontecimentos mais solenes e mais majestosos de quantos se realizavam entre nós.
Criada no Sínodo diocesano de Liège de 1264 e alcançando a sua forma definitiva em 1316, através de uma bula de João XXII, cedo as cerimónias em louvor do Corpus Christi foram instituídas em Portugal, inspiradas “nas três procissões com que foi trasladada a Arca do Testamento (…) com festa, músicas e danças”. O espírito inventivo nacional cedo introduziu nas procissões do Corpo de Deus, realizadas entre nós, figuras gigantescas – certamente para dar maior espectacularidade ao desfile: Gigantes, o Demónio, a Serpe e o Dragão.
No ano de 1387, S. Jorge, “promovido a general das nossas armas”, passou também a integrar o desfile, escoltado pelos “melhores e mais bem ajaezados cavalos que nas cidades se achavam”.
Desde a sua origem, a procissão do Corpo de Deus apresentou sempre duas facetas distintas: uma religiosa, outra profana.
A primeira, testemunho de fé e subordinada ao objectivo de incentivar a devoção, era tutelada pela Igreja e, no fundamental, estava representada pelo cortejo de entidades civis e religiosas e ainda pela presença da Sagrada Eucaristia.
A segunda era da responsabilidade da Câmara (por intermédio das corporações e mesteres) e consistia numa variada exibição de figuras, danças e cenas medievais de cunho popular: “Baco, gordo e rubro, sentado numa pipa no meio dos seus sequazes; diabos; gigantes mascarados; sátiros e ninfas, foliões e jograis, vestidos de desvairadas maneiras, fazendo momices e indecências”. Estas danças, brincadeiras e folias, refere ainda Ernesto Veiga de Oliveira, “ permitiam liberdades que tomavam por vezes aspecto de actos licenciosos, e suscitavam reparos ou censuras.”
Neste quadro, nos princípios do século XVII, os oficiais da Câmara do Porto pugnaram pela alteração do programa da festa do Corpo de Deus, eliminando “excessos”. Já no século XVIII, D. João V “sanciona a substituição das folias por andores “ e manda “tirar nesta corte as ditas figuras e usos antigos para maior solenidade e devoção da mesma procissão”.
Paulatinamente, a festa do Corpo de Deus e a sua procissão foram perdendo características. E poucas são as sobrevivências que chegaram aos nossos dias.
Apesar disso, em Penafiel, ainda se mantém a tradição do cortejo profano, integrado na procissão: Terno de clarins a cavalo, ajaezados à maneira do século XV, Bandeira Nacional ladeada por dois lanceiros em grande uniforme; séquito de cavalos ajaezados com xairéis e talizes armoriados. Serpe; Estado de S. Jorge, a  cavalo, ladeado por dois criados; pagem a cavalo; Boi Bento; Carro Triunfal com anjinhos e encimado pela Figura da Cidade vestida à romana. Bandas de música.”
Curioso é notar que hoje ”nesta procissão não podem tomar parte outros anjos ou figuras que não estejam previamente inscritos” – conforme advertência vertida também no programa das festas. Isto talvez para garantir  ao acto “maior solenidade e devoção” e, quem sabe, por temor ao retorno de “figuras e usos antigos”. Como no tempo de D. João V.

………………………….

Notas
1 Reportagem sobre as celebrações do dia de Corpo de Deus na cidade de Penafiel, 1992, publicada na revista Notícias Magazine, n.º 11.

A vida de Roberto do Diabo
Cavalhadas na Beira Baixa
Teias de Cordel
Um Teatro de sete f˘legos
A Descoberta da Moura *
Teatro em Subportela
A folia e o andor
Os Turcos de Crasto *