teatro popular

Os Turcos de Crasto *

Com o aproximar das cinco da tarde, já armados e fardados, cristãos e mouros deixam o Pavilhão Gimnodesportivo de Ponte de Lima, correm para as viaturas e, sardinha em lata, aí se acomodam. Entre os turcos vou eu num furgão, encolhido, a destilar, apesar da mordomia de viajar à frente e sentado. E partimos rumo ao lugar de Crasto, a cerca de dois quilómetros, um rumor de festa a crescer.
Após umas quantas curvas e rotundas, as viaturas dos turcos guinam à direita, descem uma ruela estreita e íngreme. Os cristãos prosseguem o trajecto pela estrada principal, buzinar contínuo sempre mais longe, a apagar-se no meio do trânsito.
Os turcos fazem alto num pequeno largo, apeiam-se, organizam-se em duas colunas e, num ápice, regressam à estrada. São 17 homens de guerra, a emergir entre carros de emigrantes e pacíficos turistas. Sempre em duas colunas a bordejar a estrada, avançam cautelosos a caminho do terreiro da Devesa, trezentos metros acima.
Frente ao terreiro, na capela do Senhor da Cruz de Pedra, a música estridula. Sem tréguas. A assistência fixa-se por ali, no cocuruto da estrada, a perscrutar a investida dos turcos; a avaliar a aproximação dos soldados de Cristo, na dobra da curva oposta.
Na coluna turca, à cabeça, vem o Vigia: figurão maltrapilho, vagaroso, a inspeccionar o horizonte com um óculo de faz-de-conta. Ziguezagueia dobrado para a frente, entregue ao desempenho, alheio aos carros, passageiros curiosos. De súbito, o vermelho-fogo de um jipe dos bombeiros cruza a cena. A sirena, o trânsito, o sol, a música: fervem, incomodam.
Cristãos e turcos estariam agora ao alcance dos olhares recíprocos, não fora a cortina de mirones sobre a estrada, trânsito enfim cortado por uma brigada da GNR. Resiste a música, a cabina de som: «Pede-se ao proprietário da viatura...». Forças turcas a ocuparem a largura do asfalto, uma praça da GNR aproxima-se, apressada. Vendo bem, é uma mulher: Ana Ribeiro (diz a placa que traz ao peito); jovem e bonita (diz o sorriso e a figura).
Os turcos continuam a progressão. O Vigia dir-se-ia avançar em câmara lenta. Alguém alerta: «Vai subir!» Acto contínuo, nos céus estraleja um foguete. Ana impacienta-se, repórter à ilharga: — Gosta disto? «É a primeira vez... Estou em estágio».
À frente das forças otomanas, o Vigia insinua-se entre carros estacionados e, a espaços, ousa sinuosas incursões no dorso do alcatrão. A música, a cabina de som, ...o mundo cala-se de repente.
Quatro soldados sarracenos galgam contra a guarda avançada das forças antagonistas; quatro cristãos irrompem num galope de pernas sobre a curva da estrada, a travarem o ataque. A marcar a dupla investida e o embate, a restolhada da corrida dos guerreiros, uns brados soltos, o chispar de espadas, lanças e escudos, frente à capela.
O confronto é rápido. Recuam os contendores, e logo reincidem. Ouvem-se dois tiros. Dois homens do Senhor de Meia Lua caem "fulminados" e, entre pés indiferentes de transeuntes, ficam a mirrar ao sol. Os cristãos fogem, turcos à perna. E não tarda que as tropas do Crescente surjam com dois Bagageiros cristãos aprisionados, cavalos à arreata carregados de mantimentos.
Os turcos alçam as duas baixas sobre o dorso das montadas e, entre fotógrafos, câmaras de vídeo e espectadores, rumam para o castelo, no vizinho largo da Devesa.
No campo raso, fronteiro ao castelo turco já ocupado, não tarda a entrada das gentes de armas cristãs. Postam-se, disciplinada formatura guerreira, no meio do arvoredo. A toda a volta, sentada e de pé, uma densa moldura humana impõe limites ao campo de batalha.
O Rei Turco, com fala espanholada — como todos os seus súbditos — «Contra los lucitanos atrevios» exorta as forças «Com lo poder de las lucias otomanas». Em discurso de contra-ataque, «Oh nobres e valentes lusitanos!», apela o Rei Cristão: «Animai-vos de valor, fiéis soldados, / E preparai as vossas lanças / Para destruir os otomanos». Não tarda, de um e de outro lado, são enviados espias.
Breve têm início as embaixadas, iniciativas diplomáticas a dar sal ao conflito. Ora de um, ora de outro lado da guerra, sucedem-se as parlengas rimadas dos emissários, incapazes de esfriar os ânimos bélicos. Novas acções de espionagem recíproca são postas em marcha, com os dois Vigias no cavaqueio em campo neutro, merenda de chouriço e vinho. No melhor da festa, um tiro inesperado "mata" o Vigia Turco. Sem tardança, o terreiro da Devesa revolve-se em combates. Os cristãos conquistam o castelo. Após múltiplas arremetidas e batalhas, ao rufo de caixa e com peripécias humoradas, os turcos vão sendo aprisionados.
Finalmente os Reis entram em combate. O Eremita pede ao Senhor da Cruz de Pedra que apoie o Rei Cristão. E logo um Anjo, alvura imaculada, aconselha:

Rende-te bárbaro turco
Cessa a tua infeliz sorte
Se não, o teu inimigo,
Dará-te o golpe de morte.

O Grão Sultão, Senhor de Meia Lua, cumpre os desígnios celestes, requer baptismo. Em Português! Prontamente, ele e os seus, são ungidos de água benta, integrados na Lei da Graça.
Os reconciliados combatentes dirigem-se ainda à capela do Senhor da Cruz de Pedra, mesmo em frente do terreiro, entoam hinos, dão uma volta ao pequeno santuário (no sentido contrário aos ponteiros do relógio), formam no breve escadório da frontaria e, em apoteose, são aclamados pelo povo.
Finda a festa, cerca de uma hora e meia de suada interpretação a animar este domingo, 12 de Agosto, um grupo de cristãos e turcos ruma ao cemitério para evocar velhos protagonistas. Sobre a campa de José Morais ficam flores: homenagem da Turquia a um "Verdadeiro Turco".

António Pedro e a Turquia
Crasto é uma aldeia minhota da freguesia da Ribeira, atravessada pela estrada nacional n.º 203, entre Ponte de Lima e Ponte da Barca. Em termos de sintética caracterização tudo estaria dito, se acaso este fosse um povoado igual aos outros. Não é. Aqui tem palco, desde tempos recuados, "O Auto da Turquia" ou "Auto dos Turcos de Crasto", relíquia cultural que resiste.
A representação converteu-se em imagem de marca da terra e suas gentes. «Os Turcos» assim se chama a equipa local de futebol salão; «Turquia» é nome de café central... enfim, em Crasto: «É uma honra ser turco, mais honra é ser turco. Ser turco dá estatuto, na freguesia», afiança Nuno Redondo, Rei Turco.
Ainda segundo Nuno, turca nomeação não é reconhecimento ao alcance de qualquer um, está subordinada a regras: «Não é turco quem nasce em Crasto. É turco quem gosta do auto e o representou pelo menos uma vez, mesmo como cristão». Este entendimento tem raiz antiga.
Em 26 de Setembro de 1965, António Pedro, homem de teatro e de múltiplas valências, assistiu em Crasto à representação. Um mês depois, na secção "Quinta sem Muros", que assinava no "Diário Popular", escreveu o artigo "Quando Turquia
No aludido texto, António Pedro refere-se às falas das personagens: em Português, para os cristãos; em Espanhol, para os turcos. «O serem gramatical e ortoepicamente errados o português e o espanhol que eles falam (e me pareceu ser tomado pelos instigadores e patrocinadores da festa como folclórico e curiosíssimo) não é folclore, é asneira, e só prova a infeliz ignorância dos intérpretes e dos que lhes transcreveram os textos. O que é pitoresco e de outro modo significativo é a circunstância de associar às personagens más — embora turcos ou infiéis — a língua do inimigo tradicional — embora cristianíssimos — que é o castelhano. E isso é que não é asneira e é folclore».
Noutra passagem, alerta: «Como as catedrais, estas capelinhas teatrais têm vários estuques sobrepostos que lhes desfiguram a traça primitiva. Desfiguram... ou compõem. Ou são uma coisa viva como esta é (eu vi um ror de gente à chuva, sem arredar pé, a divertir-se com ela) e valem pelo que são, ou armam à reconstituição não se sabe de quê e ao folclore não se sabe como e resultam pretensiosas e disparatadas». António Pedro conclui: «Pede-se a quem de direito que não intervenha, não arranje, não melhore, nem explique o que assim tem interesse e, doutra maneira, passará a ser uma patacoada».
Quem também assistiu à Turquia de 65 em Crasto foi o escritor António Manuel Couto Viana (Coração Arquivista, págs. 61 a 62): «Representação saborosamente medieva, iniciou-se em plena estrada nacional, com uma ardilosa emboscada de moiros e cristãos. Chovia, mas ninguém arredava pé, presos todos à intriga e interpretação. Um pouco antes, chegara António Pedro, com a sua irremediável imponência física e o seu ar categórico de autoridade no assunto». Segundo Couto Viana, António Pedro assistiu a tudo, sem comentários, reservando-os para a citada secção no "Diário Popular" «(...) mas com tal infelicidade que eles "mataram" a iniciativa nos anos seguintes, apesar da boa resposta do organizador do espectáculo, o moço padre João Rodrigues de Sousa».
Na representação de 2001, tivemos a alegria de encontrar em Crasto «o moço padre», hoje maduro professor João Rodrigues de Sousa, fiel à sua paixão pela Turquia e pela sua terra. Inevitável era recordar António Pedro e o referido episódio. «O António Pedro foi convidado com toda a honra, apanha uns dados gerais e julga a coisa à sua maneira. Vê sem profundidade. Na altura tivemos um bocadinho de luta». Chegaram a polemizar? «Sim. Em três artigos. Eu venerava a figura do António Pedro, mas não podia tolerar a maneira como falou deste povo, que faz o que sente e é tradição».
João Rodrigues de Sousa desde miúdo assiste ao auto: «Primeiro as coisas eram ditas de uma maneira, nas recolhas mais tardias já havia palavras transformadas». Permanente era «o Português deturpado e o Espanhol deturpadíssimo». Os passos da acção e o texto da peça, que entretanto publicou (in "Turquia — Drama das Grandes Guerras Entre Turcos e Cristãos", 1984), resultam — conforme referiu — de um minucioso e demorado labor de recolha da tradição oral, de acompanhamento da representação em diversos anos, a par da consulta de «edições, impressas ou manuscritas, sempre confirmadas pela tradição oral». A publicação assinalada é hoje, para os actores da Turquia, referência na determinação das falas e no formular de aspectos relevantes da acção. É também uma ferramenta indispensável para o conhecimento e o estudo da representação. Em suma, resposta positiva, elevada, às preocupações, juízos e alertas de António Pedro.
deixa de ser o nome de um país". Aí relata a acção presenciada, que chega aos nossos dias — quase quarenta anos depois — com as mesmas linhas mestras.

Das armas ao atavio
«Antigamente as roupas eram feitas pelos próprios, com tudo o que tivessem à mão. Houve até um ano em que foram usadas fardas de uma filarmónica», diz Adelino Silva, Rei Cristão. Nos anos 50 e 60, as vestes foram alugadas no Porto, na "Casa Valverde". «Em 81, comprámos pano e as fardas foram feitas por uma senhora. Eram cores mais garridas, bonitas para a vista, mais vivas, vermelhos, azuis...». Em 2001, as roupas foram alugadas em Viana do Castelo, «à dona Olímpia, que veste as procissões por aí adiante. Vamos mais próximos do rigor histórico das vestimentas», assegura Adelino Silva.
«Rigor histórico» significa cristãos de perna ao léu, meia escura, sandálias e todos — excepto o Rei e o Vigia — com elmo e cota de malha cinzenta recobrindo cabeça, nuca e ombros. Nas hostes cristãs, domina o azul da cruz do estandarte, signo presente também no peito dos combatentes e nos escudos.
Os turcos envergam ampla vestimenta até aos pés, alvo turbante cónico e bota de cano curto. Salta à vista o vermelho da bandeira, repetido nos escudos de todos os protagonistas, Crescente e estrela de cinco pontas, a branco.
Os Vigias Turco e Cristão trajam de modo semelhante, ao jeito bufão: carapuça vermelha, calças de fole pelo joelho, jaquetão claro e remendado. O Vigia Turco leva botas; o Cristão, sandálias.
O Anjo vai de branco, com asinhas. O Eremita enverga negro hábito talar. À civil intervêm o Caixa e o Homem do Tiro.
A cargo dos protagonistas continua o material de combate (espadas, lanças, escudos): «As armas são nossas», diz Adelino. Prossegue: «Os escudos são redondos. Na representação de 1952, há indicações de que os escudos eram as tampas das retretes, redondas, com uma pega por detrás. Por isso, para manter a tradição, nós continuamos a usar o redondo nos escudos cristãos e turcos».
Para além dos escudos, há lanças para os cristãos, espadas para os turcos. Luís Redondo, Vigia Cristão, esclarece: «As lanças não são grandes, para que no manejo ninguém se aleije. As espadas são de um material que não corta, até um bocado maleável».
E há também uma arma de fogo. Os disparos são feitos em dois momentos: logo no início, quando na estrada "morrem" dois turcos; e, mais tarde, no largo da Devesa, quando "morre" o Vigia Turco. Ainda Luís: «Estes tiros vêm do lado cristão, mas, coisa curiosa, nós não levamos espingarda, nem temos essa peça nos nossos adereços. É uma pessoa daqui (António Redondo) que dá os tiros, na hora. É suposto que os disparos vêm de alguém a favor dos cristãos, fora dos exércitos».

Um tesouro das Arábias
A Turquia tem concretização documentada nos anos de 1952, 65, 81, 84 e 90. Antes da década de 50, há quem diga lembrar-se do auto, sempre no terreiro da Devesa, embora não haja notícia de jornal, fotografia, que o confirme: «Mas o meu avô lembra-se de ter assistido a isto quando era pequeno» — atesta Nuno Nascimento, 20 anos, estudante de Matemática na Universidade do Porto.
A peça não animava a terra desde 1990. Nessa ocasião, Nuno Nascimento tinha 9 anos e era Anjo. Onze anos depois, em 2001, coube-lhe encarnar a figura de Capitão Cristão. Para garantir o futuro, considera Nuno, esta representação era decisiva: «Acho que assim a peça não se vai perder. A terra está a desenvolver, vem gente nova e, ao ver isto, entra na tradição».
A vontade de conservar a tradição generalizou o bom acolhimento à ideia de reencenar a Turquia. Quando se soube que — no âmbito da ASCURI (Associação Cultural Recreativa e Desportiva da Ribeira) e com o apoio de João Rodrigues de Sousa — Adelino Silva, Luís Redondo e Nuno Redondo queriam concretizar a representação em 2001, as pessoas mobilizaram-se e os ensaios avançaram em Maio, duas vezes por semana. 
«Às terças-feiras batíamos mais o texto dos que vão falar e, às sextas, era a parte mais das batalhas, por causa dos ritmos de caixa, para acertar». Os confrontos, ainda Adelino Silva di-los de dois tipos: colectivos (lutas de 6, de 4 e de 2) e individuais. No primeiro caso, «os combates não dão para grandes "faenas", todos têm de chegar em simultâneo ao escudo contrário para o som sair ao mesmo ritmo e, com o toque de caixa, haver aquela sintonia». No segundo caso, «é diferente, porque os figurantes já têm mais facilidade de se movimentarem, podem enganar o adversário, alguns fogem, deixam-se cair, fazem tropelias».
Sempre à noite, os ensaios decorreram num amplo espaço coberto. A comodidade da solução desagradou ao povo, que os queria na Devesa, para toda a gente se juntar e ver. «As pessoas queriam acompanhar tudo de perto, aparecer nos ensaios, participar. Quando se disse que este ano a Turquia avançava, foi uma alegria», reitera Luís Redondo.
O gosto popular pelas lutas de faz-de-conta cristãos-mouros não é apanágio só de Crasto, nem só de hoje. Estas representações têm lugar entre nós desde remoto passado e sobrevivem, na memória ou no palco, em várias regiões, em diversos lugares: "Auto da Floripes" (Neves/Viana do Castelo e Palme/Barcelos), "Auto de Santo António" (Portela Suzã/Viana do Castelo), "Os Doze Pares de França" (Argozelo/Bragança), "A Descoberta da Moura" (Vale Formoso/Covilhã)...
Sábio é o Povo que descomplexadamente visita o passado, o evoca e recria em guerras de brinquedo: universo maravilhoso que constitui relíquia cultural inestimável, um autêntico tesouro das Arábias guardado no nosso chão.

 

 

Palavra aos Protagonistas

No esforço para de novo trazer ao terreiro da Devesa o velho "Auto dos Turcos de Crasto", em 12 de Agosto de 2001, houve um protagonismo colectivo, liderado por Luís Redondo, Adelino Silva e Nuno Redondo — com o precioso apoio de João Rodrigues de Sousa.
A reportagem dá voz a este corpo organizador e a outros entusiastas da Turquia. Mas o que ali é dito não apaga a utilidade documental dos curtos testemunhos e elementos complementares que a seguir se inserem.

 

Nuno Redondo, 36 anos, professor do 2.º ciclo, Rei Turco, quarta presença no auto:
«Até metade da peça, a área de fixação do Rei Turco é a do castelo, depois, a partir do momento em que o castelo é tomado pelos cristãos, invertem-se os campos». 

«As lutas remetem para combate, mas são um misto, é mais a parte teatral da coisa».

«Quem vem ver é mais gente antiga, da terra e de fora. Fazem-no para preservar a tradição e não deixar abastardar».

«As falas são sempre as do texto. A única parte de improvisação é quando os dois Vigias estão a comer no terreiro. Aí podem inventar um bocadinho».

«Os turcos falam à espanhola porque era a língua deles, na altura».

Adelino Silva, 39 anos, técnico de desporto, Rei Cristão:
«A tradição é que deve ser gente do lugar de Crasto a fazer a peça. Mas, às vezes, há três ou quatro elementos que temos de ir buscar ao resto da freguesia. São necessárias quarenta pessoas, mais algumas para nos ajudarem».

«Os nossos gestos, os ritmos, os traçados têm sido todos os anos sempre os mesmos. Tentamos não mexer em nada: mal ou bem, fica como está».

«A autoria do texto do auto é desconhecida. Alguém o trouxe e as pessoas daqui tiveram a gentileza de ficarem com ele».

«Se os turcos falassem Espanhol puro, o público não entendia. E menos perceberia ainda se falassem a linguagem deles, dos turcos».

 

Luís Redondo, 30 anos, empresário, Vigia Cristão, terceira presença no auto (Anjo aos 10 anos, Capitão Cristão aos 19):
«A ideia era que o público pagasse os lugares sentados (500$00); mas alguns pagaram, outros não».

«O Português é para dizer que estes são os cristãos, os de cá; os outros, os que não falam Português, são os bárbaros, os que não são daqui, os de fora».

Manuel Gonçalves, 29 anos, empregado de telecomunicações, Caixa, segunda vez que participa no auto:
«A peça tem os toques dela. Eu peguei na caixa e os amigos diziam-me "mais assim, mais assado", e a gente encaixou tudo certinho».

«O Caixa só toca no largo da Devesa; antes, nas escaramuças da estrada, não entra».

José Manuel Pimenta, 34 anos, agricultor, duas presenças no auto (81 e 90):
«Este ano não entrei. Gostaria, mas isto é como um jogador de futebol: depende das necessidades da equipa e do mister».

 «Os turcos falam Espanhol, porque fomos habituados a isso».

António Pereira, 36 anos, escriturário, Soldado Turco, terceira presença no auto (turco em 81, cristão em 84):
«A ASCURI foi reanimada e agora esperamos que se mantenha activa e capaz de levar as representações para a frente em próximos anos».

Marco João, 18 anos, estudante de economia, Soldado Cristão:
«Vejo o futuro um bocado negro. Há pouca gente empenhada e esta tradição tende a morrer por aqui».

Manuel Vale Magalhães, 66 anos, carteiro reformado, Eremita:
«Entrei por várias vezes no "Auto da Turquia", sempre de Eremita. Vou vestido todo de padre e faço apelação a Deus para que ajude os cristãos. No fim, também peço ao Senhor da Cruz de Pedra e faço o baptismo».

João Alexandre Pereira, 11 anos, estudante, Anjo:
«Na Turquia faço com que o Rei Turco ceda ao Rei Cristão. Com os meus poderes, ele cede. Sou um enviado de Deus e pertenço aos cristãos».

 

Português versus Espanhol

A Turquia de Crasto adopta passos da trama dos autos inspirados em episódios da "História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França" (obra traduzida para Português por Jerónimo Moreira de Carvalho, no séc. XVIII), designadamente o duplo envio de embaixadas, de cada um dos lados da contenda ao lado antagonista, propondo a conversão ou a guerra.
Neste particular, a intriga da Turquia não se afasta da teia consagrada em outras teatralizações populares inspiradas na História, entre elas o "Auto da Floripes" (Neves e Palme). Novidade em Crasto é o Rei Cristão não ser Carlos Magno, antes o «invicto Rei da Lusitânia». Rei Turco, aqui, é o Grão Sultão da Turquia, «Senhor de Alexandria e senhor de Meia Lua», ele e os seus homens "vestidos" de Espanhol (a Língua dos antagonistas tradicionais) e "convertidos" ao Português, no instante em que o Sultão se rende à «Lei da Graça».
O processo conflitual cristãos-mouros dá-se, segundo o texto de Crasto, não em Mormionda ou em Águas Mortas, mas em chão pátrio, nas cercanias do caseiro castelo de Porto de Mós, fortim ocupado pelas                                                                                                               forças otomanas. Com a trama ancorada numa geografia familiar, antagonistas plantados em proximidade, pode imaginar-se a acção em palco a remeter para um contexto de Reconquista, mas onde chegam ressonâncias de outros antagonismos.
O desempenho lusitano, o longo "confronto" linguístico Português-Espanhol (e a carga teatral disso), outorga ao auto de Crasto um pólo de interesse acrescido entre as nossas representações carolíngias.

 

Actores e figurantes
Entre actores e figurantes a peça envolve um total de 40 pessoas (19 Cristãos, 17 Turcos/Mouros, Eremita, Anjo, Caixa, Homem do Tiro). No ano de 2001, protagonizaram a peça:
Cristãos — Adelino Silva, técn. de desporto (Rei); A. Domingos Morais, vendedor, (Embaixador); Américo Cerqueira, desempregado, (Porta-bandeira); Nuno Nascimento, estudante, (Capitão); Leonardo Torres, estudante, (Guarda); José Filipe Silva, estudante, (Soldado); Marco Amorim, estudante, (Soldado); Paulo Ferreira, estudante, (Soldado); Pedro Pimenta, estudante, (Soldado); Flávio Mendes, estudante, (Soldado); Nuno Cunha, agricultor, (Soldado); Pedro Monteiro, operário, (Soldado); Bruno Martinho, estudante, (Soldado); Baptista Dias, oper. const. civil, (Soldado); Carlos Pimenta, oper. const. civil, (Soldado); António Silva, picheleiro, (Soldado); António Vieira, oper. const. civil, (Bagageiro); Claudino, tratador de cavalos, (Bagageiro); Luis Redondo, empresário, (Espia).
Turcos — Nuno Redondo, professor, (Rei); Ricardo Queirós, estudante, (Embaixador); António Correia, desempregado, (Porta-bandeira); João Francisco Martins, funcionário de finanças, (Capitão); Jorge Redondo, fiscal de obras, (Guarda); António Morais, adegueiro, (Soldado); Pedro Gonçalves, vendedor, (Soldado); João Manuel Morais, oper. const. civil, (Soldado); José Manuel Cunha, agricultor, (Soldado); José B. Costa, oper. const. civil, (Soldado); Ernesto Pimenta, oper. const. civil, (Soldado); António Pereira, escriturário, (Soldado); Joaquim Silva, oper. const. civil, (Soldado); Paulo Vieira, técn. contas, (Soldado); Jorge Esteves, oper. const. civil, (Soldado); Francisco A. Ferreira, pescador, (Soldado); João Cerqueira, vendedor, (Espia).
Outros — Manuel Magalhães, reformado, (Eremita); João Alexandre Pereira, estudante, (Anjo); Manuel Gonçalves, emp. telecomunicações, (Caixa); António Redondo, reformado, (Homem do Tiro).

Texto de Augusto Baptista

* Os Turcos de Crasto, Notícias Magazine (NM) n.º 503, 13 Jan 2001

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