Abílio Hernandez: um trabalho “sistemático, rigoroso e exigente”
Surpresa primeiro, incompreensão depois e finalmente uma funda incomodidade definem a minha reacção à notícia de que o Estado Português não concederá qualquer apoio financeiro à Cena Lusófona no período correspondente a 2011-2012.
Na verdade, interrogo-me como é possível que o Ministério da Cultura, responsável pela atribuição dos apoios, ignore ou não considere merecedora de apoio a actividade da Cena Lusófona.
É preciso recordar ao Ministério da Cultura a importância de um profundo conhecimento relativamente às estruturas culturais e artísticas que trabalham em Portugal em condições muitas vezes ingratas. No caso concreto, bastaria ter adquirido tal conhecimento para que os responsáveis ministeriais se tivessem apercebido da enorme relevância cultural, cívica e política do trabalho que a Cena Lusófona tem levado a cabo desde 1995.
A Cena foi criada para dinamizar a comunicação teatral entre os países de língua oficial portuguesa. Mas o desenvolvimento de um trabalho sistemático, rigoroso e exigente conduziu a uma dinâmica que envolveu estruturas importantes desses países e que se estendeu muito para além de um intercâmbio de espectáculos, facto que, por si só, já seria de grande impacto para a maior parte dessas estruturas.
O trabalho da Cena Lusófona em áreas com as da formação de profissionais de teatro, da actividade editorial e da documentação e informação, entre outras, provocou mudanças significativas nas vidas das estruturas envolvidas e no próprio panorama cultural e artístico de alguns dos países em que a acção da Cena se desenvolveu. Para se aperceber disto, bastava que o Ministério da Cultura se tivesse dado ao trabalho de inquirir tais estruturas bem como os responsáveis pela vida cultural de países como Cabo Verde, S. Tomé, Guiné-Bissau ou Angola.
A um Ministério pouco atento não posso deixar de chamar a atenção para a afirmação de alguém que beneficiou das actividades da Cena Lusófona: “A Cena fez-me perder o medo do outro, do Português que vive do outro lado” (Amor de Fátima Franscisco Mateus, actriz, Angola).
Será que isto é irrelevante para Portugal e para a sua relação com os restantes países que connosco partilham a Língua Portuguesa?