Antônio Mercado: uma “entidade única e insubstituível”
Em 1997, na Escola de Teatro da UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio da Janeiro, fui contactado pela Cena Lusófona, por indicação da FUNARTE (Fundação Nacional das Artes do Ministério da Cultura do Brasil), que já então reconhecia o pioneirismo e a fundamental importância da recém-criada associação na construção de um espaço de integração e intercâmbio teatral no universo transcontinental da lusofonia. Tenho desde então acompanhado pari passu o extraordinário trabalho desenvolvido por António Augusto Barros e seus companheiros em Portugal e na Galiza, no Brasil, em África e em Timor. Orgulho-me de ter participado de várias das suas iniciativas que, para além do carácter formativo e da dimensão artística, possibilitaram encontros, trocas de experiências, cumplicidades e parcerias – que de outro modo seriam inviáveis - entre criadores, teóricos e produtores lusófonos das mais diversas latitudes. Guardadas as devidas proporções, não é descabido afirmar que a associação sediada em Coimbra tem, para o teatro dos países lusófonos, a mesma relevância do Instituto Camões na esfera da língua e da cultura portuguesa.
Se hoje, apesar de todos os percalços e limitações, já é possível identificar e reconhecer concretamente um espaço teatral da lusofonia, é principalmente à actuação intercultural da Cena que o devemos: ao vasto acervo bibliográfico constituído ao longo dos anos; às edições de autores fundamentais mas quase desconhecidos fora dos seus países de origem; às ideias e temas debatidos na revista Sete Palcos; à informação permanentemente actualizada da Cena Aberta (impressa e on line); aos vídeos que documentam e fazem circular espectáculos, tradições e valores de um universo tão rico quanto pouco divulgado; ao ambiente fraternal de integração e partilha das “Cenas no Café”; às “estações”, oficinas, seminários, encontros, criação de espectáculos, apoio a grupos, companhias e festivais, levantamento de edifícios teatrais, intercâmbio de investigadores e conferencistas – nada disso seria possível nem teria ocorrido sem o trabalho dessa entidade que permanece única e insubstituível no panorama do teatro em português.
Como brasileiro de origem e cidadão português por opção, parece-me paradoxal a intempestiva exclusão da Cena Lusófona dos apoios diretos da DGA, exactamente às vésperas do “Ano do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil”, a ser celebrado em 2012. É um contra- senso que espero ver corrigido a tempo, para que a Cena Lusófona não se veja forçada a abdicar do seu insubstituível trabalho e possa dar um valioso contributo à programação luso- brasileira de 2012.
Antônio Mercado (encenador e professor universitário, Brasil / Portugal)