Representado no Encontro Internacional organizado pela Cena Lusófona, o Secretário de Estado da Cultura de Timor-Leste, Virgílio Simith, salientou a importância do teatro para o ensino da língua portuguesa e anunciou o projecto de criar uma Escola de Artes no seu país. cenaberta publica, na íntegra, a intervenção do governante timorense.
Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio
Virgílio Simith
Secretário de Estado da Cultura de Timor-Leste*
Exmas. Senhoras,
Exmos Senhores,
É com grande satisfação que me dirijo a vós através destas breves palavras.Iniciativas e encontros como este desenvolvem as relações de cooperação, compreensão e aprendizagem entre os países da CPLP.
É cada vez maior o leque de assuntos, temas e objectivos que nos ligam. A cultura tradicional e linguística são dois exemplos. Deixemos que a cultura contemporânea também o seja, através destas acções e intercâmbios.
É do meu total apreço as condições que foram criadas nos países africanos para o desenvolvimento de um espaço cénico. É minha intenção criá-lo e recriá-lo também em Timor-Leste.
Em 2002 foi escolhida a língua portuguesa como uma das línguas oficiais de Timor-Leste, juntamente com o tetum. A primeira foi dizimada nos últimos vinte anos de ocupação indonésia. A última apenas agora se transforma numa língua oficial escrita, sendo que muito do seu vocabulário foi retirado das bases portuguesas deixadas em qualquer um dos nossos países.
Existem lacunas, existem pequenas falhas, que com a assinatura do acordo ortográfico no passado mês de Setembro do presente ano, se espera ver progredir e reforçar o uso da língua portuguesa no quotidiano familiar, escolar e de trabalho.
É a língua o primeiro vértice que nos une desde há quinze anos como Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (ainda que com a recente adesão de Timor-Leste).
O teatro pode ser uma das actividades através da qual o ensino da língua portuguesa e o seu correcto e total uso podem ser alcançados.A expressão, a interpretação, a compreensão e a “reincarnação” são momentos de assimilação sistemática do português.
Timor-Leste não tem grupos de teatro oficiais, não tem escolas profissionais de teatro, nem sequer um conjunto de actores formados. Tem sim, a força de vontade dos timorenses em aprender, e a força de vontade dos “malais” (estrangeiros) em ensinar. Existem apenas dois conjuntos de timorenses que pretendem “levar o teatro à cena de Timor-Leste”. O primeiro sobrevive de doações e da venda de outro tipo de trabalhos artísticos, falantes apenas de tétum. O outro, apresenta-se em palco quando surge a oportunidade financeira do Instituto Camões de garantir este trabalho durante alguns meses. Estes falam português.
Há diversas propostas em tornar estes dois grupos os primeiros formandos profissionais de teatro. Propostas que nos chegam de Portugal e Brasil que são recebidas com todo o entusiasmo pelo Ministério da Educação e pelo Gabinete a que presido.
Estes órgãos do governo viram aprovada este ano a Política Nacional para a Cultura, em Conselho de Ministros, onde se inicia o projecto de uma escola de Artes em Timor-Leste, bem como o contínuo empenho nas relações de cooperação internacional, em especial com a CPLP.
Pretende-se no ano de 2010, iniciar uma formação artística em teatro e música aos agentes culturais dos distritos de Timor-Leste e aos restantes colaboradores das áreas remotas que, muitas vezes, não têm acesso a televisão nem a rádio.
É nosso objectivo com esta formação, apurar o espírito de crítica e argumentação da comunidade: o saber apreciar!
É um projecto que está em construção desde 2008, buscando meios financeiros e logísticos com os quais o Sr. José Amaral, de formação artística e a pessoa escolhida para desenvolver o mesmo, possa implementar este primeiro passo de “percepção cultural”.
Desejo sinceramente que este encontro possa reconhecer alguns pontos nos quais o intercâmbio, a cooperação e a formação de pessoal qualificado sejam obtidos. Espero que a agenda de trabalho traga os resultados esperados e que as mais pequenas actividades possam reforçar os laços históricos, humanos e culturais que nos unem.
Um bem haja!
Votos de bom trabalho!
* Intervenção lida na sessão de abertura do Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio (Coimbra, 3 a 6 de Dezembro)