É uma das notícias deste cenaberta: Abel Neves venceu a III edição do Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva.
A discrição com que o acontecimento foi divulgado nos órgãos de comunicação social dos dois países, para além de particularmente injusta para o premiado, é um bom exemplo da forma como as relações de cooperação cultural entre os países de língua portuguesa têm sido pensadas e concretizadas.
Nos anos de 2005 e 2006, foram assinados cinco acordos, programas e protocolos de cooperação cultural entre Portugal e o Brasil, envolvendo os Ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Cultura dos dois países, bem como instituições que deles dependem: o Instituto Camões e o Instituto das Artes, do lado português, e a Funarte, do lado brasileiro. Os objectivos, comuns a todos os documentos, são claros: “encorajar o diálogo cultural bem como o intercâmbio, a circulação, a investigação e a produção artística”. Quatro anos depois, seria útil avaliar a execução concreta destes acordos, para além das boas vontades formalmente expressas. E perceber que a instituição de um Prémio, por importante que seja, parece realmente pouco para tanta preparação anterior e tantas declarações de intenção. Mas é ainda mais intrigante que, havendo um resultado concreto destas parcerias, ele seja tão timidamente divulgado por quem o cria e não sejam aproveitadas todas as suas potencialidades. Uma co-produção entre Portugal e o Brasil, a partir de um texto seleccionado por um júri luso-brasileiro, patrocinado por instituições oficiais, deveria ser um acontecimento ímpar na vida teatral dos dois países, capaz de dar visibilidade e de incentivar outras formas de intercâmbio e de cooperação, deveria ter um efeito galvanizador e assumir-se como projecto exemplar.
Ao nível multi-lateral, a situação não difere muito. As cimeiras dos Ministros da Cultura dos países da CPLP são momentos-chave para a definição e a prossecução de uma estratégia cultural comunitária. Desde 2000, os Ministros reuniram-se oficialmente por seis vezes. Dessas reuniões resultaram sempre declarações oficiais. Na primeira delas, realizada no Estoril, em Maio de 2000, convocada pelo ministro português Manuel Maria Carrilho, foi mesmo assinado um importante Plano de Acção (transcrito nas páginas deste cenaberta), com medidas sectoriais consideradas fundamentais para “o fomento dos intercâmbios culturais, o reforço dos laços históricos e a promoção de iniciativas comuns que valorizem o espaço de expressão linguística comum a que pertencem”. Passados sete anos, na última destas cimeiras, na cidade da Praia, os responsáveis pela Cultura dos países da CPLP reconheciam, no entanto, as “dificuldades diversas constatadas na implementação das Declarações de Estoril a Bissau” e voltavam a apresentar como projectos várias das iniciativas consideradas prioritárias em 2000. Assim, a pequena história destas cimeiras acaba por ser um clarificador diagnóstico.
Como uma das instituições que há largos anos trabalham na concretização de circuitos de intercâmbio, de co-produções, de planos de formação, de redes estáveis de cooperação, atrevemo-nos a apontar uma das principais razões para esta discrepância entre os discursos oficiais e as condições e a atenção que são dadas aos agentes no terreno. A actuação dos organismos responsáveis pela aplicação das medidas politicamente enunciadas faz-se demasiadas vezes de costas voltadas para aqueles que as podem tornar concretas – no caso, os artistas e as estruturas de criação. Sem eles, sem o seu envolvimento activo, não adiantará nunca pensar-se em estreitar laços culturais.
É por isso que, na altura em que retomamos a nossa actividade regular e em que, por coincidência, vários dos países da CPLP estão a iniciar novos ciclos políticos da sua vida democrática, organizamos em Coimbra o Encontro Internacional sobre Políticas de Intercâmbio. Para que, com o contributo de todos, através de um indispensável diálogo entre decisores políticos e agentes culturais actuantes e situados no terreno, possamos começar a construir uma muito concreta, possível e frutuosa comunidade cultural de língua portuguesa.