A Cena Lusófona é uma daquelas instituições em que as pessoas nem acreditam no que estão a ouvir e a ver quando começam a conhecer melhor. Partindo do teatro, mas passando para a intervenção (e interacção) cultural com os povos de expressão oficial portuguesa (Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Timor) ela tem realizado uma obra notável. Em dez anos os números são impressionantes: organizou 6 festivais de natureza cultural (dois em Portugal, e ainda Moçambique, Brasil, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe), pôs a representar mais de 100 companhias de teatro no espaço CPLP, realizou 23 produções teatrais em co-produção com Cabo Verde, Angola, S. Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau e Brasil; levou à cena, em 31 localidades portuguesas, representações de companhias do Brasil, de Angola, S. Tomé, Guiné-Bissau e Moçambique, promoveu 3 estágios internacionais com participação de actores de todos os países da CPLP, montou 26 oficinas de actor: 5 em S. Tomé, 3 em Moçambique, 4 na Guiné-Bissau, 5 em Cabo Verde, 2 no Brasil, 3 em Portugal, 4 em Angola. Pôs a funcionar 11 oficinas técnicas, 3 oficinas de escrita dramática, 4 oficinas de biblioteca e documentação, recebeu em Portugal 55 bolseiros, montou 5 exposições fotográficas, fez 22 realizações de "Cena no café", editou 6 números da revista "Setepalcos", de muito boa qualidade, e 7 edições do jornal "Cenaberta", com versão na Internet, editou 8 volumes de dramaturgia de autores de língua portuguesa, de Angola, Moçambique, Portugal, Cabo Verde, S. Tomé e Brasil (Colecção Cena Lusófona), aliás, de excepcional qualidade gráfica e editorial e editou ainda o belíssimo álbum fotográfico "Floripes Negra", de Augusto Baptista. Para além disto organizou e montou um Centro de Documentação e Informação onde reuniu e catalogou mais de 100 publicações periódicas, 3.500 monografias, 8.000 fotografias, e muitos cd's, dvd's, cd-rom, programas, cartazes, tudo material ao dispor dos investigadores e estudiosos. Tem ainda um "site" na Internet com mais de 1.000.000 (um milhão) de consultas entre Março de 98 e Julho de 2005, e participou, através de representantes seus, em dezenas de encontros, festivais, debates, congressos e conferências. Como disse, uma pessoa começa a analisar e nem acredita. Tem sido notável o seu trabalho no que diz respeito a áreas de intervenção cultural, lugares de animação, número de participantes envolvidos e perspectivas culturais consideradas, e sempre em função do espaço lusófono; da cantada e louvada lusofonia, sem a qual a cultura portuguesa estaria quase num guêto. Subtilmente, sem alarde, trabalhando com o silêncio dos eficientes que fazem bem, e longe dos reflexos mediáticos e das promoções; o que, como se prova, é um perigo nos tempos que correm, mais dados ao estardalhaço que à qualidade. Quem há aí que na área da lusofonia tenha feito melhor? Claro que um trabalho destes é (devia ser) currículo suficiente para que continuassem os apoios que o têm possibilitado. Não entendeu assim o Ministério da Cultura, nem o Instituto Camões, nem sequer a Câmara Municipal. Este trabalho magnífico, tendo Coimbra como ponto de partida e de referência, de todo o mundo lusófono e para todo o mundo lusófono, devia ser incompreensível para a perspectiva centralizadora que tudo manda, e fôlego cultural excessivo para a Autarquia. Já aqui falei na necessidade de Coimbra passar a ser criadora cultural. Pois bem, eis aqui o que tem sido um bom exemplo do que é ser criador cultural.